segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O Inimigo do Rei, de Lira Neto - RESENHA #21



Não sou um leitor de não ficção. Quero dizer com isto que não tenho o costume de ler obras não literárias: biografia, autoajuda, religião, filosofia, política (este último gênero então... rsrsrs), etc. Não estou menosprezando ou desmerecendo esses gêneros; apenas não me interessam. Quando pego uma não ficção para ler, só pode haver algum forte interesse envolvido, mas ainda fico com um pé atrás, meio enfadado. Foi com essa postura hesitante que decidi encarar O Inimigo do Rei, de Lira Neto. O interesse envolvido foi o desejo de conhecer mais da vida desse gênio nacional que foi José de Alencar, o patriarca da Literatura Brasileira.

Não vou falar aqui de meus amores por Alencar, pois quero que este post seja mais breve que os últimos que tenho escrito; além do que, o assunto renderia matéria para um livro inteiro. Vou tentar focar (dentro do possível) na biografia do Lira e no que achei dela.

Sensacional! Sem dúvida, uma das melhores leituras do ano. Isto vindo de uma não ficção, para mim, é algo assombroso. Fiquei surpreso de verdade e muito satisfeito por saber que tão deliciosa obra vinha de um cearense como eu e, claro, como Alencar. Cheguei a pensar que o motivo de tanto agrado seria o simples fato do livro ser sobre meu escritor favorito, mas logo lembrei que, há algum tempo, li outra biografia do autor de Iracema: José de Alencar na Literatura Brasileira, de M. Cavalcanti Proença, e não tive com ela uma experiência tão fascinante quanto a proporcionada pelo livro do Lira Neto. Fiquei encantado sobretudo com a riquíssima pesquisa desenvolvida pelo biógrafo, que desenterrou os documentos mais inacessíveis que se possam imaginar, como as primeiras contribuições jornalísticas de Alencar, quando o mesmo ainda era estudante de Direito, só para citar um exemplo. Além de diversos periódicos oitocentistas, é impressionante o número de obras consultadas, tanto de contemporâneos do biografado, como de escritores da geração seguinte. Quando concluí a leitura, senti algo como uma necessidade de parabenizar o autor, apertar-lhe a mão, agradecê-lo por aquela dedicada pesquisa que resultou em obra de tão bom gosto.

A experiência que foi ler O Inimigo do Rei proporcionou-me, além de muito contentamento, algo que vinha desejando há algum tempo: um reencontro com Alencar e sua fantástica obra. Lira Neto perpassa, uma por uma, cada obra literária, de Cinco Minutos a Encarnação, além de todas as peças teatrais e algumas obras de não ficção. Estava claro o cuidado que o autor teve em ler, senão toda, grande parte da produção alencarina. Sempre que relatava o lançamento de algum romance, comédia ou drama, o biógrafo fazia questão de contar o enredo, muitas vezes revelando o desfecho da história. Portanto, se você não leu muitas obras do Alencar, prepare-se para muitos spoilers neste livro! Eu, particularmente, nem considerei como defeito essas revelações. Entendo O Inimigo do Rei como um livro destinado aos admiradores do grande romancista, que já realizaram um contato considerável com sua vasta ficção e que, portanto, precisam de algo mais. A biografia de Lira Neto é este “algo mais”!

Admirável também é a postura que o biógrafo assume diante da difícil tarefa de recontar a história do pirracento, teimoso e malcriado José de Alencar, atributos estes dados pelos inúmeros desafetos colecionados ao longo de seus 48 anos. Para falar de um escritor mordaz, sarcástico e inexorável para com seus inimigos, Lira Neto incorpora em sua linguagem uma espécie de humor ferino que, com perícia, dá conta de relatar as mais diversas situações, de maneira imparcial. Seu texto é quase romanceado e constantemente acompanhado de charges e ilustrações de época que contextualizam os fatos narrados. Esse humor ferino de que falei é aplicado com mestria até nos títulos e subtítulos de cada capítulo da obra, fazendo alusão aos métodos que os famosos folhetinistas do século XIX utilizavam para nomear os episódios de seus romances e novelas.

O biógrafo mostra-se atento a todas as nuances de Alencar: o estudante, o leitor, o folhetinista, o romancista, o dramaturgo, o poeta, o advogado, o deputado, o ministro, o polemista, o crítico literário... Alencar não foi pouca coisa mesmo rsrsrs É digno de mérito o trabalho realizado nessa biografia que soube abarcar de forma tão pertinente a curta vida de um homem, cuja importância e representatividade para a nação brasileira vão além das fantásticas criações fictícias que idealizou/imortalizou em nossa Literatura.

Nesse universo de facetas assumidas pelo nosso gênio, a que mais me desagradou foi a do político. Não que Alencar tenha sido um mau político. O assunto é que não me encanta. Assim, sempre que Lira Neto concluía uma daquelas polêmicas de tirar o fôlego, como a d’A Confederação dos Tamoios, e passava às candidaturas e exercícios políticos de seu biografado, eu tratava de acelerar a leitura, a fim de chegar logo à recepção crítica de novas obras, como também novas polêmicas, que não foram poucas. Devo confessar que, mesmo lendo a contragosto as passagens políticas, divertia-me involuntariamente diante das querelas com o Duque de Caixas, o Barão de Cotegipe, o senador Zacarias de Góis, o próprio D. Pedro II, e tantos outros nomes da política do Brasil Império, época em que conservadores e liberais faltavam matar-se por seus interesses.

Confesso que fiquei um tanto decepcionado com algumas atitudes tomadas por Alencar. Não conhecia essa veia vingativa que possuía e sua postura implacável diante dos inimigos, chegando a ser um terrível perseguidor em alguns casos: João Caetano e Manuel Antônio da Fonseca Costa que o digam! Tudo bem que não temos uma visão real das circunstâncias em que se deram tais ocorrências, mas mesmo assim, fica evidenciado um caráter insurgente e quase imoderado. Para responder às críticas literárias, Alencar não era menos perspicaz; assim, ele não deixou sem resposta todos que em vão atacaram sua obra, e não foram poucos: Franklin Távora, Feliciano de Castilho, Pinheiro Chagas, Sílvio Romero, Joaquim Nabuco (este último, movido mais por despeito que por entendimento de crítica), e tantos outros que, mais tarde, quase que na totalidade, acabaram por reconhecer o valor da obra alencarina. Machado de Assis, seu admirador confesso, nunca duvidou que a obra de seu mestre passaria à posteridade.

Aliás, essa era a grande preocupação dos anos finais de Alencar: passar à posteridade. Uma viagem que fizera a Europa, sobretudo, deixou-o muito desestimulado com relação ao destino que teriam seus livros. Alencar sentiu-se deslocado naquele mundo moderno e futurista que achara em Londres e Paris, tão diferente daquilo que infundira no pensamento a partir da leitura dos autores europeus. O contato com os novos estilos cultivados nos mais diversos campos da arte fizeram com que se sentisse ultrapassado e anacrônico. A viagem que realizara por motivo de saúde ainda mais agravara sua organização física, já tão fragilizada pela tuberculose. Quase fui às lágrimas quando Lira Neto contou: “Em vez da cura, encontrara na Europa uma visão antecipada do futuro. Sofrera profundamente ao constatar que lá, no amanhã, talvez não houvesse mesmo um lugar reservado para ele e suas antigalhas literárias.” (pág. 372). Compartilhei daquela dor, imaginando aquele homem que dedicara tanto tempo de sua vida às Letras pátrias, temendo ficar esquecido no tempo, nos anais, como as velhas crônicas históricas que tanto lera na juventude.

Hoje sabemos que, no final de tudo, Machado foi quem teve razão. Alencar, atualmente em domínio público, continua sendo editado por várias editoras, além de já ter sido traduzido para vários idiomas e estar sendo cada vez mais redescoberto pela crítica contemporânea. Quase todos os seus romances ainda estão no catálogo de várias editoras e, portanto, nas livrarias. Sua produção teatral, salvo O Demônio Familiar, é que continua injustamente esquecida, mas alguns recentes investimentos da editora Martins Fontes têm sido notáveis ao relançar peças como As Asas de um Anjo, Mãe e O Jesuíta. Preciso confessar que sou fã do Alencar dramaturgo, tanto quanto do romancista, e que já li todas as nove peças.

Finalmente, todo fã de José de Alencar precisa ler O Inimigo do Rei, que é para o século XXI, o que José de Alencar e sua Época, de R. Magalhães Júnior, foi para o século XX. A propósito, preciso ler essa outra biografia que, imagino, tenha sido uma das fontes mais essenciais na construção da obra do Lira Neto. Fazer o quê? Amor demais por Alencar!!!

Avaliação: ★★★★★
Daniel Coutinho

P.S.: Disponibilizei para os apreciadores da obra de Alencar um conto raro, único que ele publicou no gênero, intitulado Lembra-te de Mim. Saiba mais clicando AQUI!

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