segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Mais Livros! - AGO/2016



Este foi o mês das sagas rsrsrs Quem leu meu post sobre Rocambole, deve lembrar o quanto fiquei motivado a conhecer a série inteira. Não resisti e acabei comprando a edição em oito volumes da editora Brasil (1946), que compreende os nove livros da saga e mais o décimo, escrito pelo português Leite Bastos, embora a autoria na edição seja atribuída ao próprio Ponson du Terrail. Como já expliquei, a edição não é 100% íntegra, pois a tradução dos livros faz uma enxugada na linguagem, mas imagino que sem grandes prejuízos, sendo que os livros são volumosos e com letra pequena (o que vem a ser a pior parte). Peninha que nessa coleção não incluíram a obra A Verdade sobre Rocambole, que é uma não ficção, onde o autor revela em quem se inspirou para criar seu mais famoso personagem. Tenho procurado este livro inutilmente. Se alguém souber onde posso encontrá-lo, por favor, me avise! :-)

Daí, já tinha aqui comigo há um tempão Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Na orelha da edição, consta: “Não se compreende a existência de uma pessoa de mediana cultura que ainda não o tenha lido, [...]”. Me senti uma pessoa sem cultura quando li isso rsrsrs Mas a verdade é que o que sempre me impediu de ler Os Três Mosqueteiros é aquele meu probleminha de só ler uma série de livros depois de reunir a dita série completamente. Por isso, finalmente comprei as sequências da famosa obra do Dumas: Vinte Anos Depois (Lello & Irmão, 1958, em 2 vols.) e o gigantesco O Visconde de Bragelonne (Lello & Irmão, 1963, em 7 vols.). Essas três obras formam a saga “D’Artagnan” que, nas minhas edições, perfazem um total com mais de 4000 páginas. Precisarei de bastante fôlego para ler isso um dia! Mas tenho forte impressão de que vou gostar. Vale lembrar que essa trilogia foi escrita em parceria com Auguste Maquet, que colaborou com várias outras obras do Dumas, como O Conde de Monte Cristo.

Adquiri também a primeira edição sem censura da obra O Retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde. Já li a versão mais conhecida, mas quando soube da existência dessa edição que a Globo Livros lançou, desejei-a imediatamente. Infelizmente, ela está esgotada, mas acabei achando nos sebos (muito bem conservada!!!). Depois, numa tentativa de vencer antigos medos, comprei o livro O Exorcista (Agir, 2013), de William Peter Blatty. Devo confessar que nunca tive coragem de assistir aquele filme com a Linda Blair, que foi o terror da minha infância rsrsrs. Tremo só de pensar naquela menina endemoninhada, mas decidi que vou corajosamente assisti-lo brevemente, mas só depois que ler o livro!

Por último, para não faltar com os cearenses, adquiri A Mulher de Passagem, coletânea de contos do português mais cearense Carlos d’Alge. Pelas ilustrações, parece ser um livro bem obsceno rsrsrs. Que bom que ficou curtinho o texto! A saga Rocambole e O Visconde de Bragelonne que são os responsáveis por isso rsrsrs.

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A Missão, de Ferreira de Castro - RESENHA #24



A Missão é uma coletânea de novelas do português Ferreira de Castro, autor bastante citado quando se fala em Neorrealismo. Publicado em 1954, A Missão reúne três narrativas que, embora designadas como “novelas”, são na verdade: 1 novela (A Missão); 1 romance (A Experiência) e 1 conto (O Senhor dos Navegantes). Trata-se de um conjunto fabuloso e admirável. Após concluir a leitura, senti-me saturado de literatura. Foram tantas impressões, tantas informações, tantas sensações... Devo confessar que esse livro mexeu comigo bem mais do que eu previra, provocando um sem número de diferentes emoções ao longo da leitura, o que foi uma grande surpresa, por se tratar de um livro moderno. Achei simplesmente fabuloso e arrebatador. Não foi uma leitura fácil. A dificuldade vai além da linguagem do autor, que é bastante complexa; está especialmente em acompanhar o ritmo do Ferreira de Castro, com todos os seus artifícios e recursos expressivos tão fascinantes. Parecia que estava tomando uma bebida forte demais; não aguentava consumir muito. Toda vez que pegava o livro, demorava um pouco até me habituar ao ritmo do autor, como se fizesse um mergulho e precisasse de tempo para me habituar àquelas águas. É complicado explicar minha reação diante dessa obra, porque ora ela me enternecia, ora me revoltava profundamente. Por diversas vezes, senti-me pequeno diante de uma onda gigantesca, incapaz de conter as furiosas vagas, consciente de que deixei passar mais informações do que eu mesmo acredito. Por outro lado, inspirei-me. Eis uma leitura que me suscitou diversas ideias, me fez pensar em tantas questões, além de me provocar impressões extasiantes. Deu até vontade de escrever rsrsrs.

Cabe aqui confessar que todo esse entusiasmo expresso se deve ao romance “A Experiência”, segunda narrativa do livro. “A Missão” e “O Senhor dos Navegantes” são formidáveis; mas “A Experiência” é simplesmente inefável.

“A Missão” é uma novela que trata de autoconsciência. Mounier pertence a uma ordem de padres missionários, mas não se sente confortável com a condição de celibatário, dada a dificuldade de refrear seus desejos carnais, os quais julga bastante naturais. Esse desconfortável conflito interior acende escrúpulos em sua mente, os quais entendo como uma reação expiatória ou uma necessidade de desculpar-se com a própria consciência. Ao ver que o Superior mandou pintar em letras garrafais a palavra MISSÃO no teto do edifício, foi reclamar com ele, alegando que tal atitude poderia pôr em risco a vida de centenas de inocentes. O caso é que o edifício missionário foi construído ao mesmo tempo, e com igual estrutura, que um convento de freiras, que nunca chegou a ser convento, pois fora transformado em fábrica. Vale lembrar que a narrativa se passa numa aldeia francesa, no período da Segunda Guerra Mundial. O receio de Mounier é que os alemães intentem explodir a fábrica que, a seu ver, ficaria mais protegida por conta da circunstância de que, vista de cima, a mesma é exatamente igual ao edifício missionário. A pintura identificaria muito facilmente em qual dos dois prédios funcionava a fábrica, onde trabalhavam centenas de operários, responsáveis pelo sustento das muitas famílias daquela aldeia. O Superior fica intrigado com as colocações de Mounier; decide fazer uma assembleia com todos os padres dali, para saber as opiniões deles. A situação se complica quando fica visível a falta de consenso entre os religiosos, pois muitos temem o bombardeamento da missão. O debate entre os padres através dos argumentos desenvolvidos é o que torna interessante essa narrativa. O fato do Superior, tal como Mounier, tender mais para a proteção da fábrica por uma questão de expiação de antigos pecados, revela o espírito crítico do autor, propondo a questão: “as pessoas fazem o bem por se compadecerem do próximo ou para se sentirem melhor consigo mesmas?” O que me incomodou mesmo foi o desfecho, que, é claro, não vou contar, mas que posso dizer: foi decepcionante. A linguagem do autor, por outro lado, faz cócegas no cérebro, especialmente nas comparações poéticas que até me lembraram um pouco José de Alencar.

Passemos agora à segunda narrativa, minha preferida, que é o romance “A Experiência”. A narrativa é dividida em 3 partes: Ele; Ela; Todos Eles. A primeira parte, “Ele”, traz capítulos que narram os “dias” de Januário na prisão. Cada capítulo designa um “dia”, com exceção do primeiro, que narra “a entrada” de Januário no presídio. O autor começa por contar as emoções provocadas por aquele ambiente que, anos antes, fora um asilo de crianças órfãs, onde o próprio Januário passara a infância. Ele começa a recordar os principais acontecimentos daquele bonito período de sua vida, contados em retalhos para seus companheiros de cela: Palhetas, Malafaia e António Joaquim, a quem todos chamam “O Sábio”. O texto é geralmente escrito em duas camadas, de modo que o autor alterna o foco da narrativa insistentemente, deixando o leitor, muitas vezes, impaciente pela continuação do enredo principal. O autor também reveza a função de narrar. Ora o próprio Januário está a contar os fatos, ora temos um narrador em 3ª pessoa a complementar a narração. Esses recursos não se dão através de digressões, uma vez que o autor não se detém por largo tempo nas interrupções que faz. É mais uma questão de ritmo, tornando o texto quase uma prosa poética. Januário conta do tempo que passou no asilo e de seus namoricos com Clarinda, outra órfã. Quando o asilo fecha as portas, por falta de recursos, as crianças ficam desamparadas. Januário é adotado pelo Sr. Carrazedas, um velho tabelião. Clarinda vai para a casa de dona Ludovina, uma viúva que era vizinha do filho do Sr. Carrazedas. Januário conta da condição de criado que tinha no seu novo lar, como dos trabalhos excessivos que lhe eram atribuídos pela senhora Germana, governanta da casa.

Em “Ela”, segunda parte do romance, temos os mesmos moldes e recursos utilizados em “Ele”, inclusive a narrativa em duas camadas. Desta vez, é Clarinda, agora no prostíbulo de dona Fortunata, que vai contar às companheiras “da vida” suas desventuras após o fechamento do asilo. Essas companheiras são: Cesária, Pilu, Natália e Luísa. O relacionamento entre as “moças” não é tão pacífico quanto o de Januário e seus colegas de cela, embora eles também tenham discutido algumas vezes. Os capítulos de “Ela” são designados por “tardes”. Não obstante as discussões, Clarinda conta do tempo que viveu em casa de dona Ludovina e de como se apaixonara por Armando, afilhado da viúva. Percebam como “Ela” e “Ele” se casam perfeitamente, contribuindo para a excelente constituição do romance, que é todo muito bem calculado. Há um momento em que finalmente Januário e Clarinda se encontram depois de padecerem nas casas de seus “benfeitores”, sendo que esse encontro ocorre antes dele ser preso e dela entrar para o prostíbulo. Em “Todos Eles” finalmente se explica a prisão de Januário, além de termos os desdobramentos finais da trama. Os capítulos são designados por “dias” e “tardes” e o processo da construção narrativa em duas camadas persiste, revezando o tão ansiado julgamento de Januário com a história do asilo que virou presídio, o que esclarecerá a razão do título “A Experiência”. O final, assim como em “A Missão”, não me agradou muito, mas por motivos diferentes. Numa das cenas finais, o narrador sugere ou dá a entender algo que revolta o leitor. Em “Todos Eles” fica bastante evidenciada a intenção por detrás do enredo, a crítica social realizada de maneira bastante pertinente, discreta e gritante ao mesmo tempo. E acreditem: tudo o que contei é apenas a superfície, a parte mais palpável do romance, pois o mesmo compreende matéria suficiente para uma tese de doutorado rsrsrs. Só a forma textual daria um excelente estudo.

Enfim, temos “O Senhor dos Navegantes”, que não é menos pretensioso que seus antecessores. Um embate do homem com o próprio Deus é a proposta do conto. Nele, o narrador conta de quando subiu a colina para chegar à capela do Senhor dos Navegantes, onde os pescadores devotos agradeciam os livramentos divinos em alto mar. Lá, ele encontra um estranho que, pela conversa, sugere ser Deus. O estranho começa a reflexionar uma porção de assuntos, propondo a ideia de que o ser humano precisa continuar/aperfeiçoar a obra começada por Deus. Embora aparentemente herético, o conto não visa questionar a existência divina; antes, busca criticar a forma como as pessoas entendem Deus, achando que podem agradá-lo com oferendas, votos e esforços que poderiam ser melhor empregados na luta pelo bem comum.

No mais, tenho certeza de que deixei passar muita coisa dessa obra tão densa e tão rica. Deve-se levar em conta que foi uma das últimas publicações de seu autor que nela soube desenvolver com muito acerto toda sua maturidade literária. Não se trata de um livro para qualquer ocasião, muito menos para qualquer leitor. É indubitavelmente uma leitura transformadora e prova cabal de que a Literatura é capaz de proporcionar experiências inacreditáveis.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

DOWNLOAD! "A Trindade Maldita", de Franklin Távora (obra rara)


Sou um caçador de obras raras. Tenho acentuada estima por livros que estão esquecidos, muitos deles injustamente. Mas não pensem que saio desenterrando qualquer coisa à toa. Meu interesse se concentra em obras de autores que aprecio muito, mas que por algum motivo, estão fora de circulação. Fico arrancando os cabelos quando não consigo achar essas raridades. Felizmente, de tempos em tempos, pesquisando ocasionalmente, acabo tendo a surpresa de achar uma ou outra.

Recentemente, encontrei duas que há muito tempo já havia desistido de achar. São elas A Trindade Maldita e Lendas e Tradições Populares do Norte, ambas do cearense Franklin Távora, o famoso autor de O Cabeleira. Dele, ainda busco incansavelmente o romance A Casa de Palha; portanto, ficaria muito grato se alguém puder dar alguma sugestão de como encontrá-lo, nem que seja a informação de algum periódico em que tenha aparecido essa obra.

A Trindade Maldita e Lendas e Tradições Populares do Norte são obras que achei na mesma fonte do Lembra-te de Mim, já disponibilizado por aqui. Essa maravilhosa fonte, que já muito me tem servido, é a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Eles possuem um acervo fabuloso de periódicos. É prato cheio para qualquer pesquisador.

Infelizmente, nem tudo é assim tão perfeito, e essas duas obras do Franklin Távora estão incompletas. Contudo, são perdas tão mínimas, que em nada impedem a apreciação delas. No caso d'A Trindade Maldita, apenas o 1º capítulo está incompleto. Quanto às Lendas e Tradições Populares do Norte, falta apenas a primeira lenda, que é O sino encantado. A quem puder me orientar de como posso obtê-la, ficarei muito grato!

Um problema das digitalizações da HDBN é a qualidade das imagens, o que deve ser perdoado, levando-se em conta a fragilidade de documentos com mais de 150 anos. Para ler A Trindade Maldita, tive que realizar grande esforço e, para não sofrer o mesmo numa possível releitura, decidi editá-la completamente, atualizando sua ortografia, à maneira como fiz com Lembra-te de Mim, de José de Alencar. Como as Lendas e Tradições Populares do Norte estão bem mais legíveis, isentei-me dessa difícil tarefa.

Como já disse, apenas o 1º capítulo d'A Trindade Maldita está incompleto. O que ocorre é que a narrativa saiu em folhetins do Diario de Pernambuco, de 8 a 12 de abril de 1862, e não 1861 como referem erroneamente a maioria das bibliografias, inclusive na famosa obra Franklin Távora e o seu Tempo, de Cláudio Aguiar. O número do jornal em que se dá a estreia só está disponível até a página 6. Como o folhetim de Távora era sempre publicado na página 8 (que era a última página do jornal), ficamos sem o começo da história. Seria maravilhoso se alguém pudesse localizar em alguma outra biblioteca esse número na íntegra, para assim completarmos a obra.

Felizmente, esse extravio no periódico não prejudicou em nada a leitura da narrativa, que como vocês perceberão, é bastante influenciada pela Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, que é inclusive citada pelos personagens. O esquema é o mesmo: um grupo de homens chega numa taverna, começam a beber e contam histórias de horror para passar o tempo, enquanto o sono não chega. Em A Trindade Maldita, contudo, as histórias têm um ponto comum, que só será visível aos olhos do leitor no capítulo final, que é mesmo surpreendente. O teor das histórias contadas é espantosamente macabro e devo confessar que fiquei chocado com várias cenas horrorosas. Fico imaginando os leitores do século XIX... Devem ter crucificado Franklin Távora que, ousado, nem lembrou de usar pseudônimo.

Enfim, não poderia deixar de compartilhar com o público o resultado deste laborioso trabalho que foi editar A Trindade Maldita. Deixei ao final do texto, uma nota explicativa que esclarece os procedimentos utilizados no processo de edição. Para os apreciadores de Franklin Távora, da literatura oitocentista, do romance de folhetim, vale muito a pena conferir!

Aproveitem!

A Trindade Maldita (Franklin Távora) DOWNLOAD AQUI!

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O Diário de Anne Frank - RESENHA #23



Antes de mais nada, não sou leitor desse tipo de livro. Já contei por aqui que não costumo ler não ficções. Devo confessar também que odeio narrativas de guerra. Por que então li este livro? Vou contar. Há alguns anos, assisti um filme, Escritores da Liberdade, com aquela linda da Hilary Swank. Ela interpretou uma professora que tem o grande desafio de assumir uma turma de jovens muito problemáticos. Acho que todo mundo já viu um filme assim rsrsrs... Pois bem! O caso é que a tal professora, para incentivar sua turma ao processo de leitura e escrita, utilizou a famosa obra O Diário de Anne Frank, o que deu muito certo. Desde então, fiquei bastante curioso pelo livro, que já conhecia, obviamente, de ter ouvido falar. Quem nunca se deparou na vida com o nome Anne Frank? Já sabia que se tratava das anotações de uma menina que morreu durante a Segunda Guerra; por isso mesmo, nunca quis ler rsrsrs. Mas depois do filme da Hilary, que é inclusive baseado em fatos reais, incluí Anne Frank à minha interminável lista de futuras leituras.

Agora que li, estou profundamente tocado por esse livro depressivo. Os fãs de Anne Frank vão me matar agora rsrsrs! Mas sério: esse livro é bastante perturbador e de uma atmosfera agonizante. Portanto, quem estiver triste, se sentindo mal ou melancólico, fuja desse livro! Definitivamente não é um livro ruim; mas chega a ser tão triste, que incomoda, sobretudo pela consciência de que tudo aquilo aconteceu mesmo. Fiquei muito em dúvida quanto a fazer esta resenha. Pareceu-me muito difícil separar o livro em si de toda a história real envolvida. Pensei: este livro não pode estar sujeito à crítica; ele não é uma obra de arte; trata-se de um documento histórico materializado nas páginas do diário de uma adolescente. Por outro lado, senti grande necessidade de externar minhas impressões de leitura, ainda que não tenham sido exatamente positivas. Portanto, quero deixar claro que estou lidando apenas com o livro em si, o texto escrito, desconsiderando todo o exterior que pesa sobre ele. Dessa forma, penso ser mais fácil avaliar a obra de Anne Frank.

O livro, como já se sabe, é um diário autêntico. Anne Frank ganhou-o em seu aniversário de 13 anos, em 12 de junho de 1942. No mês seguinte, ela é obrigada a partir, juntamente com a família, para um esconderijo que passa a ser denominado de Anexo Secreto. A família de Anne é de judeus; assim, as perseguições de Hitler, que já tinham obrigado os Frank a emigrar da Alemanha, também foram responsáveis por aquela situação de escondimento, agora em Amsterdã, na Holanda. O Anexo Secreto constitui a parte superior do prédio onde trabalhava Otto Frank, o pai de Anne. A família conta com o apoio dos funcionários do prédio para manterem-se escondidos, além de aceitarem dividir o espaço com outra família judaica: os van Daan.

Julgo necessário especificar a constituição das duas famílias. Então, lá vai:

Família Frank Otto Frank (pai); Edith Frank (mãe); Margot (filha mais velha); Anne (filha caçula).
Família van Daan Hermann van Daan (pai); Petronella van Daan (mãe); Peter (filho único).

A essas sete pessoas, junta-se, pouco tempo depois, o senhor Albert Dussel, um dentista que vivia com uma cristã, e que também precisava se refugiar. A convivência desses oito enclausurados do Anexo Secreto é o assunto predominante no diário de Anne. Ficava sem fôlego só de imaginar a situação: não poder sair de um lugar até que terminasse uma guerra cujo fim não se podia precisar. Sufocante, não? Imaginem o tédio, a dificuldade de convivência, as restrições de todo tipo, sem contar com o constante medo de ser descoberto a qualquer momento! Por isso que digo: este livro é perturbador!

Os primeiros registros de Anne foram feitos antes da fuga para o Anexo. Neles, conhecemos uma Anne bem chatinha e meio superficial ao julgar seus colegas de escola. É sem grande novidade essa primeira parte do diário, mas serve para constatarmos que Anne não era mais do que uma adolescente normal, com seus problemas e dilemas típicos da idade. O primeiro terço do livro é bem chatinho de ler; se bem que o livro todo é bastante cambiante: ora fica superinteressante, ora prende-se a descrições triviais, ora tende a ser muito sentimental e reflexivo, ora serve para Anne despejar sua raiva... A leitura como um todo não é ruim, mas a mim não empolgou muito. A escrita de Anne é, por vezes, muito atropelada, e ela mesma reconhece isso para Kitty, nome que ela dá ao diário.

Ficava impaciente com os conflitos familiares. Anne era a ovelha negra da casa. Ela simplesmente brigou com todo mundo do Anexo rsrsrs. No diário, ela se mostra vítima, mas fica bastante evidenciado seu temperamento difícil. Ela geralmente não explica muito bem como se davam as contendas familiares, limitando-se a queixar-se de todo mundo, principalmente de sua mãe. É triste a maneira como Anne se refere à própria mãe. Um adolescente que lesse o diário de Anne ficaria logo do lado dela e talvez super se identificasse. A verdade é que não podemos esquecer que Anne era só uma adolescente e, como tal, era comum que entrasse em atrito com os pais. O ressentimento de Anne não se limita à mãe, mas a praticamente todos do Anexo. Dava para perceber que ela tinha uma invejinha da irmã mais velha, Margot, que era uma menina-prodígio.

É bem verdade aquilo que diz que o sofrimento faz amadurecer as pessoas. Anne é prova disso. Seu amadurecimento é plenamente visível ao longo do diário, o que a faz censurar seus primeiros escritos e reconhecer seus defeitos, como também a necessidade de melhorar enquanto pessoa. E Anne muda. Prova disso é que seu relacionamento com todos fica muito mais estável a partir dos registros de 1944. Temos então uma Anne simplesmente linda e apaixonada. A convivência e os instintos da idade fazem-na se apaixonar por Peter, o filho dos van Daan. O relacionamento entre eles começa por uma bela amizade e, aos poucos, vai tomando outra forma, na medida em que os dois passam a ter mais confiança um no outro. O despertar da sexualidade de Anne é relatado sem pudores por ela, fazendo com que essas passagens fossem censuradas nas primeiras edições em livro, divulgadas por seu pai, que foi o único sobrevivente entre os moradores do Anexo Secreto. Após a morte de Otto Frank, uma investigação rigorosa foi feita sobre os manuscritos de Anne, conferindo-lhes autenticidade e coletando bastante material inédito, divulgado a partir de 1989.

As anotações de Anne sobre seu romance com Peter são maravilhosas; são das minhas favoritas, a perder somente para os escritos de Anne em que a mesma valoriza as pequenas coisas à sua volta: o sol, a lua, a natureza, reconhecendo mesmo não serem coisas pequenas, mas motivadores à sensação de felicidade que ela tanto aspirava. Ocasionalmente, temos uma Anne mais fragilizada e sensível à terrível situação vivida por todos ali; de maneira que reaparece a adolescente ressentida com os pais, que quer ser feliz à sua maneira, sem ter que dar satisfação a ninguém. Também aparecem, ocasionalmente, as descrições de situações triviais que me pareceram muito maçantes. Assim, como já disse, o livro é todo bastante cambiante, alternando constantemente a tonalidade do texto.

Algo que me pareceu bastante interessante, agradável e curioso foram as estratégias utilizadas pelos moradores do Anexo para passar o tempo. Sem nada para fazer além de prestar pequenos serviços aos funcionários do prédio, eles liam, estudavam, faziam cursos por correspondência, aprendiam idiomas e ouviam o rádio. Basicamente isso. Anne, que inegavelmente tinha talento para escritora, desejava ser jornalista e rabiscava vários contos e romances. Ela chega a contar o enredo de um deles, inspirado na história de seu pai que, como ela sabia, casara sem amor. Fico me perguntando se Anne faria sucesso como escritora se não houvesse morrido no Holocausto.

A história de Anne Frank é, sem dúvidas, comovente. Quando li a última página do diário, tive uma sensação tão esquisita, como se Anne não tivesse morrido há mais de setenta anos, mas àquele mesmo momento. Seu último registro dá mostras de uma autoconsciência admirável. Seus desejos, suas culpas, seus receios, seus sonhos... Tudo foi tão bruscamente interrompido, como as anotações de seu diário, cujas páginas, soltas pelo sótão, jamais teriam uma continuação.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Mais Livros! - JUL/2016 (especial de aniversário)



Enfim, depois de muita espera: Mais Livros! de julho!!! E pela foto, já devem ter descoberto a surpresa que preparava para esse mês especial. Tudo bem que só chegou agora, mas está valendo rsrsrs. Trata-se da obra completa de Monteiro Lobato em 34 volumes. Estou incluso entre os milhões de brasileiros que apenas conhecem Monteiro Lobato por referências e pelas adaptações para a TV das histórias do Sítio do Picapau Amarelo. De fato, nunca li Monteiro Lobato. Na infância, por incrível que pareça, nunca tive contato com suas obras infantis. Depois, conforme fui amadurecendo, confesso que nunca fui interessado em ler os livros adultos do criador de Jéca Tatú. Parece uma conspiração do destino que me separa de Lobato rsrsrs Mas finalmente dei o primeiro passo (e que passo!) para combater tal conspiração, adquirindo sua obra completa que, na verdade, não é tão completa assim, conforme veremos. O lançamento das obras de Monteiro Lobato no Brasil daria um estudo inteiro; por isso, vou tentar ser o mais sucinto possível em minhas observações sobre as edições que adquiri.

Antes de morrer, Lobato organizou o que seriam suas Obras Completas, para serem lançadas pela editora Brasiliense. Dividiu sua produção em duas séries: Literatura geral e Literatura infantil. A primeira reunia em 13 volumes toda a sua produção adulta; a segunda reunia em 17 volumes os livros do Sítio do Picapau Amarelo. Os volumes foram publicados atendendo a todas as exigências do autor, a começar pela ortografia particular dele, que prescinde da maioria dos acentos gráficos. Algumas obras foram reformuladas, como é o caso da coletânea de contos O Macaco que se Fez Homem. Não sei bem por que, mas Lobato a renegou enquanto livro, preferindo desfazê-la e distribuir os contos por outras duas coletâneas: Cidades Mortas e Negrinha. Sei que a editora Globo, há algum tempo, relançou as obras do Lobato, incluindo O Macaco que se Fez Homem, o que me leva a pensar que eles reeditaram Cidades Mortas e Negrinha segundo a antiga compilação. Fico feliz por ter adquirido a última versão compilada pelo próprio autor. Sinceramente, acho a atitude da editora Globo um tanto desrespeitosa, uma vez que intervém na vontade do próprio Lobato. Se ele queria dar uma nova compleição às suas obras, e assim o fez em vida, penso que essas mudanças deveriam ser respeitadas. Ao que parece, as edições da Globo também não aderiram à ortografia peculiar de Lobato, o que vem a ser outra questão que, sinceramente, nem sei bem se concordo ou discordo, pois com as últimas mudanças sofridas em nossa ortografia, não saberíamos dizer com precisão em que isso afetaria/influiria na ortografia particular do criador de Narizinho.

Esta edição das Obras Completas pela editora Brasiliense teve sucessivas reimpressões, sendo que, após a morte de Lobato, novos textos foram acrescidos, especialmente à série de Literatura geral, que de 13 passou a ter 17 volumes. As obras inéditas no Brasil e que foram publicadas apenas na Argentina, contudo, não foram incluídas em nenhuma das reimpressões. Por isso disse que essa obra completa não é tão completa assim. Não obstante uma ou outra lacuna, ainda é a melhor edição para se ler Monteiro Lobato com todas suas peculiaridades. Sei que foi lançada posteriormente uma terceira série das Obras Completas, com as traduções de Monteiro Lobato em nove volumes. Não adquiri essa terceira série da coleção, pois já tinha vários dos livros traduzidos por Lobato em outras traduções. Vou deixar listado abaixo os títulos enfeixados nos 34 volumes das Obras Completas (1ª e 2ª séries); quando mais de uma obra constituírem um volume, os títulos aparecerão separados por barra (/). Em seguida, comentarei rapidamente as outras aquisições do especial mês de julho!

Obras Completas de Monteiro Lobato em 34 volumes
(Obs.: As obras não saíram segundo a ordem cronológica de publicação)

1ª Série – Literatura geral

1.      Urupês
2.     Cidades Mortas
3.      Negrinha
4.     Ideias de Jéca Tatú
5.      A Onda Verde/O Presidente Negro
6.     Na Antevéspera
7.      O Escândalo do Petróleo/Ferro
8.     Mister Slang e o Brasil
9.     América
10.     Mundo da Lua/Fragmentos/Miscelânea
11.      A Barca de Gleyre (1º tomo)
12.     A Barca de Gleyre (2º tomo)
13.     Prefácios e Entrevistas
14.     Literatura do Minarete
15.     Conferências, Artigos e Crônicas
16.     Cartas Escolhidas (1º tomo)
17.     Cartas Escolhidas (2º tomo)

2ª Série – Literatura infantil

1.      Reinações de Narizinho
2.     Viagem ao Céu/O Saci
3.      Caçadas de Pedrinho/Aventuras de Hans Staden
4.     História do Mundo para as Crianças
5.      Memórias da Emília/Peter Pan
6.     Emília no País da Gramática/Aritmética da Emília
7.      Geografia de Dona Benta
8.     Serões de Dona Benta/História das Invenções
9.     D. Quixote das Crianças
10.     O Poço do Visconde
11.      Histórias de Tia Nastácia
12.     O Picapau Amarelo/A Reforma da Natureza
13.     O Minotauro
14.     A Chave do Tamanho
15.     Fábulas/Histórias Diversas
16.     Os Doze Trabalhos de Hércules (1º tomo)
17.     Os Doze Trabalhos de Hércules (2º tomo)

O saldo do mês, que não poderia resumir-se a Monteiro Lobato, trouxe uma diversidade de outras obras. Adquiri o tão desejado Livro das Mil e uma Noites, que considero uma das leituras mais fundamentais da Literatura Universal. A edição é da Biblioteca Azul (que é selo da editora Globo) e está num box com 4 volumes que reúnem a obra integral. É um box simples, sem grandes atrativos, com livros em brochura de capas meio brilhosas. O conteúdo é, sem dúvida, excelente, mas penso que o prodigioso trabalho de Mamede Mustafa Jarouche merecia uma edição mais elegante e um projeto gráfico mais arrojado. É a primeira tradução brasileira feita direto do árabe.

Da saudosa Cosac Naify, adquiri o clássico Decameron, do italiano Boccaccio, pensando que a edição era integral. Quando vi “10 novelas selecionadas”, fiquei decepcionado, principalmente porque não fui capaz de perceber esse detalhe antes de comprar rsrsrs. Ao menos, é uma edição da Cosac, né? E está simplesmente lindíssima, em capa dura, toda ilustrada e cheia de detalhes. Pena que não é completa! Vou precisar comprar outra edição. Aceito sugestões! Comprei também Mary Poppins, da P. L. Traves. A edição está ricamente ilustrada e traz esse detalhe inusitado da lombada exposta. Nunca tinha visto isso antes rsrsrs. Fiquei boquiaberto, jurando que quando fosse abrir o livro, ele iria se desmanchar, mas, para minha surpresa (ou não rs), os cadernos estão firmes. Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós, que já tem resenha por aqui, e O Filho de Mil Homens, do português Valter Hugo Mãe, completam minhas aquisições Cosac.

Aí, a editora Pedrazul continua fazendo aqueles lançamentos tentadores, especialmente por serem exclusivos rs! Cranford e Esposas e Filhas, de Elizabeth Gaskell, aparecem pela primeira vez em português, graças à querida Pedrazul. Não poderia deixar de adquirir isso. Aproveitei a oportunidade e pus também A Intrusa (Júlia Lopes de Almeida) no pedido. Trata-se de um romance brasileiro. Isso mesmo! Pedrazul trazendo clássicos nacionais! Torcendo para eles desenterrarem outras raridades brasileiras!

Adquiri A Marca do Zorro, de Johnston McCulley, pois tenho muita vontade de conhecer a história original do lendário D. Diego de la Vega, especialmente depois de ter assistido aquela novela colombiana Zorro: a espada e a rosa rs. E para não perder o costume, não poderia faltar uma raridade! Obtive O Pirata, de Frederick Marryat, também conhecido por Capitão Marryat. Esse escritor foi outra influência do meu querido Alencar. Adquiri ainda um recente lançamento da editora Darkside: Menina Má, de William March. Não é exatamente o tipo de leitura que me encanta, mas confesso que fiquei cuiroso por esse livro, especialmente porque quase não li nada de terror/horror.

Passando para os brasileiros, completei minha coleção de romances da Rachel de Queiroz, adquirindo: Caminho de Pedras, As Três Marias e O Galo de Ouro. Adquiri também o volume com as peças Lampião e A Beata Maria do Egito. Da obra da Rachel, tenho vontade ainda de adquirir os livros infantis; quanto às coletâneas de crônicas, não tenho interesse. Para concluir, comprei um livro contemporâneo! Trata-se de uma coletânea de poemas chamada Tempestardes, do paulista Leonardo Chioda. Estava visitando o site da editora Patuá e este livro chamou minha atenção. Título bastante sugestivo, não? Mesmo não gostando muito de poesia nem de literatura contemporânea, julgo pertinente experimentar alguma coisa do tipo, vez por outra. E com isso, já tive boas surpresas! Acho que vou antecipar Tempestardes na minha lista de próximas leituras, pois fiquei muito curioso mesmo.

Espero que tenham gostado deste Mais Livros! tão especial! Tomara que o de agosto saia em agosto mesmo rsrsrs! Até o próximo post!

Daniel Coutinho

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