sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Tulipa Negra (La Tulipe Noire), de Alexandre Dumas - RESENHA #47


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Sempre muito curioso pela obra de Alexandre Dumas, decidi começar minha experiência com o autor por uma obra fabulosa, hoje um tanto esquecida, A Tulipa Negra, que é um verdadeiro conto de fadas para adultos rsrsrs.

Poderia resumir facilmente esse romance em quatro palavras: injustiça, inveja, amor e fé, sendo esta última um elemento fundamental na condução do enredo. A princípio, um leitor mais exigente poderá julgar inverossímeis várias das passagens deste livro, julgando mesmo inadmissíveis tantas coincidências recorrentes na obra. Mas prevendo isto mesmo, o genial Dumas ampara-se na “fé” de que falei, atribuindo os acontecimentos mais incríveis do livro à intervenção divina. Este, pois, não é um livro para céticos.

O começo da narrativa pode apresentar certa dificuldade, pois nele o autor faz uma abordagem histórica sobre as transformações políticas na Holanda do século XVII. Essas mudanças incitam a invenção de intrigas capazes de colocar o povo holandês contra os irmãos Witt, líderes políticos do antigo regime. Revoltado e iludido por essas intrigas, o povo excuta o linchamento desses irmãos Witt, que tanto trabalharam pelo bem da Holanda. Temos aqui, portanto, a INJUSTIÇA, retratada numa cena cruel e espantosa.

Após essa introdução histórica, o autor concentra-se no real propósito do livro, que é contar a história do nobre Cornélius van Baerle, um sábio averso à política e amante das artes. Após encetar um minucioso estudo sobre vegetais e insetos, van Baerle apaixona-se pelo cultivo de tulipas. A partir daí, torna-se um tulipeiro excessivamente cuidadoso em reunir os mais diferentes tipos de tulipa existentes no mundo. Assim, sem o saber, acaba despertando a INVEJA de Isaac Boxtel, seu vizinho, que também é tulipeiro, mas que não dispõe dos mesmos recursos econômicos de van Baerle.

A inveja de Boxtel culmina quando van Baerle emprega todos seus esforços para obter a dificílima tulipa negra. A Sociedade Hortícola de Harlem oferece um prêmio de cem mil florins a quem conseguir cultivar com sucesso a rara tulipa totalmente negra e sem manchas. Após realizar vários experimentos, van Baerle finalmente obtém três cebolas capazes de gerar a tão sonhada tulipa negra. Nenhum de seus movimentos, contudo, passa despercebido ao invejoso Boxtel, que acaba descobrindo ainda que Van Baerle é portador de uma carta de um dos irmãos Witt, seu padrinho. Boxtel faz uma denúncia anônima e van Baerle acaba preso, acusado de ter sido cúmplice do padrinho, ainda que ignorasse inteiramente o conteúdo da carta confiada a seus cuidados.

Boxtel aproveita a prisão do vizinho para tentar roubar as cebolas da tulipa negra, mas não as encontra, pois van Baerle levara-as consigo para a prisão, sem que ninguém percebesse. Na cadeia, van Baerle conhecerá aquela que acenderá a chama do AMOR em seu coração: Rosa, a filha do odioso carcereiro Griphus. Desacreditado de sua inocência, van Baerle é condenado à morte, mas sua vida milagrosamente acaba sendo poupada e ele é enviado para outra prisão onde deverá passar o resto dos seus dias.

Quando estava ciente da morte no cadafalso, Van Baerle confiara suas valiosas cebolas à Rosa, deixando-lhe ainda um testamento que lhe garantisse a posse da recompensa pela tulipa negra. Mais uma vez os planos de Boxtel são frustrados, pois ele negociara os pertences do condenado, tão logo soubera da execução que, como já disse, nem aconteceu.

Em seu novo cárcere, tendo como única companhia os pombos, van Baerle planeja usar aqueles companheiros voadores como veículo de comunicação. Escreve uma mensagem para sua criada, pedindo que ela comunique Rosa sobre seu novo cárcere. Amarrando a mensagem num pombo, van Baerle espera que ela chegue a seu destino; e ela de fato chega. Tal como este, muitos acontecimentos “impossíveis” terão lugar nessa história, de maneira que, se o leitor não puder compactuar da FÉ de seu autor, desdenhará do livro certamente. A Tulipa Negra é um livro de fé, pois crê numa força maior capaz de recompensar os bons e castigar os maus.

Agora compreendo todo o culto a Alexandre Dumas. Seu estilo, longe de ser piegas, é simplesmente delicioso. Sua escrita é cuidadosamente elaborada com requintes de humor e ironia. Dumas sabe narrar como poucos, em boa prosa, conversando ocasionalmente com o leitor, tratando-o mesmo como a um amigo, nunca duvidando de sua inteligência (quem leu sabe do que estou falando rs). A Tulipa Negra é obra emocionante, de um romantismo inteligente, sutil e cativante. Não há como não se apaixonar por seus heróis ou não odiar os seus vilões. É um romance felizmente otimista que demonstra que a ingratidão e a inveja não são páreos para a fé e o amor.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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