terça-feira, 21 de março de 2017

O Mandarim, de Eça de Queirós - RESENHA #45


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Nunca um livro do Eça havia me perturbado tanto quanto este O Mandarim, não só por sua escrita complexa, mas também pelo sarcasmo exacerbado em reação à miséria humana, sem contar com os dilemas de consciência que se estendem até o leitor.

A falar a verdade, nunca ouvira falar no chamado “paradoxo do mandarim” de Chateaubriand, a quem só conhecia por ter influenciado Alencar com sua Atala. Tampouco imaginava que essa filosofia francesa tivesse inspirado Eça nesse romancete fantástico. Embora esse dilema de consciência seja pouco lembrado atualmente, no século XIX serviu de matéria a muita gente, inclusive ao autor d’Os Maias. A questão é: você permitiria a morte de um rico chinês em troca de herdar toda sua fortuna, sem que ninguém descobrisse? É no mínimo tentador, não? Seja sincero e confesse rs! Pois é justamente esse questionamento que sugeriu a Eça o mote d’O Mandarim.

Teodoro é um amanuense que mora num quarto alugado da casa de dona Augusta, vivendo de ordinários vinte mil réis mensais. É também um tipo bastante contraditório: sendo cético, não deixa de ser supersticioso; sendo ateu, não deixa de ser devoto de Nossa Senhora das Dores. Nunca se considerou infeliz, contudo, pois sabia apreciar perfeitamente as doçuras da vida humilde. Ainda assim, ambicionava relacionar-se com pessoas da alta sociedade, ser transportado em carros luxuosos, participar de reuniões ilustres e frequentar ambientes festejados.

Dentro de suas condições, Teodoro buscava distrair-se. O passatempo que lhe cabia no bolso eram os livros velhos que ele devorava. Numa ocasião, porém, deparando-se com a situação já contada do “paradoxo do mandarim”, algo sinistro aconteceu. Um homem misterioso, de chapéu e guarda-chuva, oferta-lhe o disposto no livro, desde que Teodoro faça tocar uma campainha que lhe é indicada. Um simples toque e o nosso amanuense de vinte mil réis se tornaria um dos homens mais ricos do mundo. Não acreditando que a tal visão pudesse ser o Diabo, Teodoro ouve-lhe sofismas que o convencem a tocar a funesta campainha. Ao toque fatal, morre Ti-Chin-Fu, o grande mandarim, quando preparava para lançar ao céu um papagaio de papel.

Após receber a fortuna do finado chinês, o contraditório Teodoro começa a ter escrúpulos quando pensa: “De que me serviam por fim tantos milhões senão para me trazer, dia a dia, a afirmação desoladora da vileza humana?”. Tais pensamentos não o impedem de passar a uma vida de excessos. Teodoro, rodeado de riquezas e amantes, torna-se numa celebrada figura e todos o adoram. O único problema é que a visão de Ti-Chin-Fu morto, com seu papagaio, o persegue todo dia. Sua consciência pesa e cogita sobre as consequências de uma deliberada atitude. Teodoro supõe que a família do defunto está na miséria e que ele é o único culpado; e que, por isso, inconformado, o espírito do mandarim o persegue para puni-lo por ter desapropriado seus legítimos herdeiros.

Vale lembrar também que, além das perturbações do fantasma, Teodoro padece grande descontentamento, pois seus excessos não o satisfazem inteiramente. Sua personalidade contraditória lhe faz lembrar as já citadas doçuras da vida humilde. Numa tentativa de reparar seus erros, ele está disposto a desposar uma das herdeiras de Ti-Chin-Fu e salvar da ruína aquela família. Para isso, ele terá de ir à China, mas sua estada por lá não sairá exatamente conforme o planejado.

A viagem de Teodoro ocupa boa parte da narrativa, pois o autor descreve com riqueza de detalhes todo o exotismo de Pequim, e devo confessar que isso me incomodou bastante. Acho que já comentei por aqui que não dou muito valor a descrições minuciosas de paisagens. Ann Radcliff que o diga rsrsrs! Mas não foi este o único fator que me desgostou nesse livro. A linguagem carregada em excesso comprometia a fluidez do texto. Confesso que nunca achei Eça tão difícil como n’O Mandarim. Finalmente, o pessimismo que perpassa toda a obra, a partir da visão de um narrador perspicaz e irônico, fez-me parecer o livro malicioso demais. Eça também nunca me foi tão desagradável como agora. Que fique claro que não contesto a qualidade literária e a genialidade do autor. A proposta do livro é que me pareceu perturbadora demais, especialmente por mostrar o homem como um ser inevitavelmente desprezível e vil. Se pensamentos assim já repercutiam no século XIX, o que diriam nossos antepassados diante de nossa realidade contemporânea?

É inegável que qualquer noticiário comprova o quão desanimadora é a condição do homem moderno. Mas, sinceramente, não quero acreditar que somos tão ruins assim e que a humanidade é tão desprezível. Quero muito acreditar nas pessoas e num futuro promissor construído por elas. Quero crer na nobreza, na honestidade e no amor. Quero crer que ainda podemos confiar uns nos outros. Quero. Quero muito. Será que estou querendo demais?

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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