quinta-feira, 2 de março de 2017

O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa - RESENHA #43



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Averso que sou à literatura moderna, fico muito surpreendido quando gosto de um livro dessa fase literária. Foi o caso de O Feijão e o Sonho (1938), livro delicioso que desejei ter lido há mais tempo. Orígenes Lessa, seu autor, não me era de todo estranho. Lembro de ter lido, há muitos anos, A Pedra no Sapato do Herói, um divertido livrinho infantojuvenil, mas nada comparado ao objeto desta resenha.

O Feijão e o Sonho é o tipo de livro que todo escritor deveria ler, pois trata de uma questão muito particular aos artistas da palavra: a valorização de sua categoria na sociedade.

Campos Lara é um poeta que vive no mundo da literatura. Sua vida é ler e escrever o tempo todo, ignorando ao máximo o mundo lá fora, inclusive sua família. Seu egoísmo chegou a me incomodar em alguns momentos, pois por mais que admirasse o artista em exercício, jamais poderia concordar com sua postura diante de seus problemas. A Campos Lara não importa quanto ganhará por seu trabalho, se poderá pagar suas contas em dia, se sua esposa poderá viver sem privações ou se os filhos estão doentes por falta de remédio. A Campos Lara interessa dedicar-se inteiramente a seus livros: escrevê-los e publicá-los.

Maria Rosa é a desafortunada esposa do poeta. De temperamento adverso ao dele, sua postura é sempre realista perante as circunstâncias. Ela quem possui o senso de razão que falta ao marido. Para Maria Rosa, ofício que não serve para trazer feijão à mesa é ofício inútil. Por isso, à mulher de Campos Lara toda literatura é detestável, pois apenas consome o tempo do marido sem dar-lhe uma compensação que seja. O livro Crepúsculo, por exemplo, reuniu aos poemas algumas dívidas.

Eis a proposta d’O Feijão e o Sonho: mostrar as dificuldades de ser escritor no Brasil. Está-se vendo que escritor, como diria Maria Rosa, não é profissão. E que fique claro que quando digo “escritor”, refiro-me ao artista da palavra: aquele que escreve com intenção artística, aquele que produz matéria para um vasto sítio comumente chamado Literatura. Quantos poetas não estão por aí carregando peso? Quantos romancistas estão ocupados demais para construírem seus personagens? Quantos dramaturgos acham-se impedidos de levarem suas obras à cena? Qual o lugar da Arte em nosso país? São quantas vagas para o cargo de artista? Quanto pagam por livro escrito? Vale a pena mesmo ser escritor?

Compartilhamos todas essas indagações com Campos Lara e muitos outros artistas tão incompreendidos pelas pessoas do seu convívio, não obstante buscarem tanto compreender essas mesmas pessoas em suas obras. O egoísmo de Campos Lara não é egocêntrico. Talvez por isso mesmo o leitor desculpe sua irresponsabilidade. O caso é que ele está tão cego pelo sonho de passar à posteridade, que já nem lembra que precisa do feijão. Assim vai sendo contada a vida desse artista: tendo seu sonho ofuscado pelas necessidades do cotidiano.

O Feijão e o Sonho é livro que provoca mais reflexão que apreciação. Não que seja obra mal acabada. Ao contrário, a narrativa é agradável e vivaz. O humor acentuado (ao ponto de arrancar muitas gargalhadas) é realizado com louvor. A princípio, até pensei que se tratava de um livro picaresco, mas o autor vai além e convida o leitor a conhecer uma dura realidade. É rir pra não chorar rsrsrs. Os capítulos que pormenorizam o passado de Campos Lara é que me pareceram um tanto descartáveis. Não que sejam ruins, mas formam um longo hiato dentro do livro que compromete aquela fluidez tão espontânea dos primeiros capítulos, mas que felizmente é retomada pelo autor nos capítulos finais.

No mais, só tenho a dizer que ainda estou bastante impressionado com toda essa matéria lida. Minha empatia com Campos Lara chegou a tanto, que estou profundamente convencido de que este livro já está entre os melhores do ano.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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