terça-feira, 20 de junho de 2017

Como Gota de Óleo na Superfície da Água, de Léo Mackellene - RESENHA #50



Acabei de ler Como Gota de Óleo na Superfície da Água, romance de estreia do cearense Léo Mackellene, lançado recentemente pelo selo “Radiadora”. A experiência não foi das mais felizes e tentarei explicar por quê. Pra quem não conhece, o romance, provavelmente influenciado pelas ideias de Zygmunt Bauman, autor de Amor Líquido (2003), trata da fragilidade ou liquidez dos relacionamentos atuais, especialmente através do triângulo Júlio-Leila-Madalena; a narrativa é contada pelo ponto de vista de quatro narradores.

A começar pelos problemas mais evidentes, o estabelecimento do texto está bem sofrido. Erros de revisão são sempre chatos. É bem difícil escapar deles, eu sei, mas aqui senti um pouco de desleixo nesse quesito: discrepâncias entre nova e velha ortografia, pontuação, concordância, uso dos porquês; termos estrangeiros, etc. Uma atenção mais cuidadosa na hora da revisão poderia ter evitado boa parte das incorreções. O principal problema dos erros de revisão é que, geralmente, eles acabam interferindo no julgamento estético da obra, como se eles desvalorizassem o valor artístico da mesma. É o que acontece comigo, pelo menos! rs

Quanto aos narradores, como já mencionei, são quatro: Júlio, Leila, Madalena e um narrador em 3ª pessoa. Eles aparecem aleatoriamente ao longo do livro de maneira bem proporcional, exceto por Madalena, que narra menos. Senti falta de uma identidade mais consistente na construção desses narradores, o que me dificultava o reconhecimento deles durante a leitura. Mas depois o próprio Léo me alertou para a seguinte ideia proposta pelo livro: “Como se alguns espíritos fossem tão grandes, mas tão grandes que precisassem nascer cinco ou sete pessoas pra esses espíritos terminarem de reencarnar por completo.” (pág. 22) Em outras palavras, Júlio, Leila e Madalena, além do narrador em 3ª pessoa, compartilham da mesma alma, como se fossem um só. Talvez o espiritismo explique melhor essa parte rs. Mas indesculpável mesmo é a troca de narradores num mesmo trecho; de um parágrafo a outro, por exemplo; o que acontece no mínimo três vezes, certamente por lapso.

A escrita também é carregada de recursos que, a meu ver, comprometeram a fluidez do texto. Talvez a repetição de palavras tenha sido, desses recursos, o que mais me incomodou. Às vezes, parecia que estava lendo um trava-língua: “Desde então, o aniversário de Clarinha seria comemorado no dia em que ela se mudara pra casa da Maria Luiza, e não o dia mesmo em que tinha nascido, mesmo dia em que a mãe adotiva morrera.” (pág. 89); ou “Longe de ser outro. Antes de existir, contudo. Antes de antes de nascer o mundo. Longe, muito longe... longe de ser novo. Longe de ser outro.” (pág. 132) ou pior ainda “[...] foi o que lhe disse o pai e o pai dele disse a ele e o pai do pai dele disse ao pai dele.” (pág. 325).

O livro é ainda saturado de referências (músicas, filmes, livros, artistas, etc) que aparecem o tempo todo. Sempre entendi que uma referência funciona como um recurso para produzir efeito; mas quando tal recurso é empregado imoderadamente, o efeito acaba se perdendo, tornando-se repetitivo e insípido. Apontar todas as referências que aparecem em CGOSA daria outro livro. A linguagem escrachada utilizada em vários episódios também não me pareceu de bom tom, devido à sua considerável recorrência. O verbo “trepar” teve, por exemplo, uma participação muito efetiva na obra rs. Isso para não citar tantos outros termos vulgares que me pareceram exagerados e sem grandes propósitos.

Há ainda passagens em que o texto toma uma roupagem que mistura filosofia e autoajuda, como a querer, a todo custo, persuadir o leitor psicologicamente: “Algumas coisas são inevitáveis. A vida é inevitável, e o que tem de acontecer tem muita força.” (pág. 125), ou “Os momentos que podemos lembrar são momentos em que pudemos alcançar a superfície do Ser e respirar. O que esquecemos é mera instância, momento em que não Fomos, nem Éramos... Estávamos... e estamos todos só de passagem.” (pág. 310) e só mais esta “Viemos cá neste mundo para desatar nós e refazer laços. Somos sempre uma ponte, uma ponte para o outro, para algo ou pra algum lugar. Sempre.” (pág. 312). Augusto Cury que se cuide! rs

A dispersão da narrativa em retalhos, o que já é quase uma regra no romance contemporâneo desde que Milton Hatoum publicou Relato de um Certo Oriente (1989), foi outro recurso descomedido. São inúmeras as histórias paralelas que acabam tendo mais espaço que o núcleo central na primeira metade do livro. Casos de parentes, amigos, conhecidos, vizinhos, empregadas domésticas rs: personagens secundários e terciários que não tiveram grande relevância para os propósitos do livro; quando muito, tornaram-no mais extenso. Mas que, devo admitir: essas subtramas roubaram a cena por diversas vezes, pelo colorido e pelo interesse, em relação ao núcleo principal.

Finalmente, passando ao núcleo central, o triângulo Júlio-Leila-Madalena não me pareceu convincente pelo comportamento improvável dos personagens. É sempre muito obscura a maneira como os relacionamentos na trama atam e desatam, principalmente pela facilidade com que isso ocorre. Os personagens de Léo parecem amar à primeira vista; desamar ao primeiro deslize; e voltar atrás ao primeiro arrependimento. São inúmeras as situações inconcebíveis, especialmente pelo perfil que vamos traçando mentalmente de cada tipo. O desenvolvimento e o desfecho desse núcleo central são questionáveis, para não dizer inverossímeis.

Agora, para não descuidarmos de apontar as qualidades do livro, não poderia deixar de falar da ambientação que me pareceu bastante condizente com a realidade cearense, urbana e rural; e não estou falando exclusivamente da realidade atual, mas de toda uma geração. Quem cresceu nos anos 80-90, por exemplo, sorrirá não poucas vezes diante de costumes e modismos daquele tempo. Vez por outra, vislumbrava certa quedinha do autor pela prosa regionalista. O capítulo que narra o casamento de dona Menina e Sebastião chega a lembrar Rachel de Queiroz. Pracabá, Promessa e Medida do Bonfim eram para mim Fortaleza, Sobral e Massapê rs. Foi o que vi de grandioso em CGOSA: a ambientação e o registro de costumes, dando aquela saudadezinha de um tempo em que podíamos pular e gritar na chuva, de bica em bica, sem nos preocuparmos com nada.

Entendo perfeitamente que um romance de estreia é sempre mais vulnerável. Contudo, o que percebi em CGOSA foi que a experiência do “escritor” sobrepujou a do “prosador”. Foi deste último que senti falta e, de fato, é ele quem precisa ser trabalhado mais. Desejo muita sorte ao Léo na formação desse prosador que já está desabrochando nele.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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domingo, 11 de junho de 2017

Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo - RESENHA #49



 Peguei Noite na Taverna (1855) para ler com grande entusiasmo, com aquele sentimento de “finalmente!” e muita boa vontade. Não esperava do livrinho uma grande obra-prima, uma leitura arrebatadora ou grandiosa; não o superestimava. Esperava, sim, uma leitura agradável, inteligente e curiosa. Curioso é esse livrinho ser tão cultuado no panorama de nossas letras! Sinceramente, eu o achei fraquíssimo; e não pensem que foi por ter criado grandes expectativas; o caso é que não gostei mesmo.

Álvares de Azevedo pode ter sido um grande poeta, não o nego. Seu mérito maior foi mesmo o de ter deixado considerável obra, morrendo aos vinte e um anos incompletos. Pode parecer injusto exigir excelência de um prosador que mal saiu da crisálida. Não é bem isso o que estou fazendo! O que não entendo é todo esse apuro atribuído à novelinha (se é que pode ser classificada assim) do poeta da Lira dos Vinte Anos.

O único interesse que vi no livro, sinceramente, foi esse artifício de unificar uma coletânea de contos mórbidos, estabelecendo um fio condutor que perpassa toda a obra, fazendo ainda com que, ao final, este mesmo artifício concentre uma narrativa própria. Tal recurso foi imitado diversas vezes ainda no século XIX, compreendendo influência que resiste até hoje. Em 1862, Franklin Távora publicava A Trindade Maldita, obedecendo à risca o modelo de Álvares de Azevedo. Em nosso tempo, Pedro Bandeira, com Descanse em Paz, meu Amor... (1996?) aproveitava o mesmo modelo, apenas adequando-o ao gosto do seu público infantojuvenil. É incrível como tenha gostado dessas duas obras citadas bem mais que da fonte que as inspirou!

Li recentemente também Noites Lúgubres, de José Cadalso, obra que, na hipótese de Brito Broca, teria inspirado Noite na Taverna. A meu ver, não descarto a possibilidade que Álvares de Azevedo tenha lido a narrativa espanhola e, portanto, sofrido alguma influência; mas afora a morbidez das cenas, não reconheço o reflexo de uma sobre a outra. Fica muito mais evidente a influência de Byron e sobretudo Hoffmann, ambos referidos no próprio texto.

Li por essa edição (Garnier, 1994), ilustrada por Di Cavalcanti, com introdução de Edgard Cavalheiro.

Os contos de Noite na Taverna (referindo-me apenas às histórias contadas pelos cinco amigos bêbados) beiram o ridículo. O subtítulo da obra, “contos fantásticos”, foi justamente descartado das edições atuais, uma vez que à exceção do conto de Solfieri (onde o fantástico aparece vagamente), os demais nada apresentam de fantasioso. Todos os contos rodeiam a mesma temática: o amor malogrado pela tragédia. As histórias são contadas numa linguagem que oscila entre a prosa e a poesia, tendo mais efeito quando pendidas para esta última. O prosador Álvares de Azevedo é um simples condutor de marionetes. Suas personagens são excessivamente artificiais e mal construídas. O enredo só chama atenção pelo exagero e o tratamento (malcuidado) de temas delicados como antropofagia e incesto. A escrita, enfim, não cativa, não entretém e não agrada (a mim!). A culminância do ridículo está no conto de Bertram, que certamente é o mais fraco do livro, chegando a ser mais rocambolesco que Ponson du Terrail rs.

Não deixo, contudo, de reconhecer a importância de Noite na Taverna enquanto peça de construção da nossa prosa ultrarromântica. Talvez o autor nem a pretendesse publicar, consciente da imaturidade ficcional da mesma. Álvares de Azevedo não teve tempo para trabalhar o prosador imberbe que era. Em outras circunstâncias, poderia ter avultado mais firmemente na história de nossa ficção.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 4 de maio de 2017

Os Dois Amores, de Joaquim Manuel de Macedo - RESENHA #48



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Como veem, não esperei mais dez anos para ler um novo romance do doutor Macedinho. A obra escolhida, Os Dois Amores (1848), causou-me impressão tão deliciosa, que chega a ser difícil falar da experiência. Quando li O Moço Loiro ano passado (naquele feliz reencontro rs), reconheci aquele Macedo que deleitou-me na adolescência; foi como rever um amigo distante que, não obstante o correr dos anos, pouco ou nada mudou. Agora, porém, o caso foi outro. Macedo me pegou de jeito com esse livro maravilhoso que está injustamente tão esquecido. Um romance deliciosamente profundo e tocante!

O propósito do livro é discutir a desigualdade social na cidade do Rio de Janeiro em meados do século XIX. Logo no início da narrativa, o leitor é apresentado a duas moradias vizinhas: “O Céu cor-de-rosa” e o “Purgatório-trigueiro”. Percebam o humor ácido na escolha dos nomes. A primeira é habitada por uma Bela Órfã; a outra, por uma Velha Bruxa. O contraste entre riqueza e pobreza é lançado pois aos olhos do leitor.

Celina é a Bela Órfã de dezesseis anos que, após a morte dos pais, vive sob os cuidados de seu avô Anacleto e Mariana, sua tia viúva. Os três habitantes do “Céu cor-de-rosa” vivem com abastança e divertimentos. O pai de Celina, Paulo Ângelo, foi um médico bastante afamado por sua conduta nobre e solidária. Macedo constrói quase um capítulo inteiro para tecer a diferença entre o “médico” e o “negociante de receitas”, uma das digressões mais interessantes da obra rs. Aliás, Os Dois Amores é cheio de digressões, o que para mim foi uma novidade, em se tratando de Macedo que, embora já houvesse me dado mostras de tal recurso, jamais na mesma proporção que nesse romance. Convém mencionar que as digressões de Macedo são deliciosíssimas (pelo menos para mim foram rs), e que se realizam de duas formas: através do narrador e pelos extensos diálogos que permeiam todo o livro. Macedo não poupa nos diálogos que, muitas vezes, acabam um tanto excessivos.

No “Purgatório-trigueiro” residem Irias, que é a Velha Bruxa, e Cândido, seu filho adotivo. O moço, que tem vinte anos, é escrevente de advogado; tem um passado muito misterioso, uma vez que não conheceu os pais. Tudo o que Cândido sabe é que foi concebido fora do casamento; enjeitado por sua mãe, foi entregue à velha Irias, que adotou-o recém-nascido, mas recebendo auxílio financeiro do pai do menino. Aos treze anos, Cândido foi levado a Europa para formar-se. O romance começa justamente com o regresso do jovem já formado. Seu aparecimento passa quase despercebido, dada a constante discrição do mancebo que, pálido e triste, quando não está no trabalho, vive sempre encerrado num sótão silencioso. Cândido sabe que seu pai já faleceu, mas deseja ardentemente descobrir quem é sua mãe, não guardando-lhe nenhum rancor por tê-lo enjeitado.

Os pensamentos de Cândido eram todos para sua desconhecida mãe; até que um dia, da janela de seu sótão, ele tem uma visão extasiante: uma bela jovem caminhando entre as flores de seu jardim. Era a Bela Órfã que, todas as manhãs, visitava suas rosas. Cândido fica completamente tomado por aquela visão que não lhe sai do pensamento. Ele, contudo, é consciente de sua condição tão inferior à daquela deusa impossível. Mas no dia de finados, a velha Irias tem a lembrança de visitar o túmulo do saudoso benfeitor dos pobres, o pai de Celina; lá, a velha e Cândido põem-se a rezar, até que os surpreendem Anacleto, Mariana e Celina. Esta última, comovida do gesto daqueles estranhos, põe-se a chorar em pranto desesperado, de tal maneira que Cândido, por sua vez, deixa-se contagiar pela mesma emoção. Esse primeiro encontro entre Celina e Cândido, chorando ambos sobre o túmulo do pai da Bela Órfã, será decisivo para o nascimento de um sentimento que começa a florescer.

Anacleto, num gesto de gratidão aos moradores do “Purgatório-trigueiro”, convida-os para um sarau em sua casa, desconsiderando a classe social dos mesmos. Aqui, Macedo fará outra dentre tantas digressões do livro; esta para minuciosamente analisar as diferenças de classes, tomando o gesto de Anacleto como ato extraordinário e incomum para os costumes da época. O autor chega a surpreender quando atribui culpa ao Governo nessa questão de classes. Nem preciso dizer que essa desigualdade social será o primeiro empecilho para a realização do amor de nosso novel casal.

Dentre os frequentadores da casa de Anacleto, destaca-se Salustiano, um moço rico e vaidoso que exerce um poder inexplicável sobre Mariana, influência esta sempre comparada ao poder de um senhor sobre sua escrava. Macedo joga mais uma vez com o passado, o que já é uma marca registrada em suas obras; passa a impressão de já ter tudo arquitetado de antemão, incitando a curiosidade do leitor com diálogos truncados, jogando ao longo do livro peças de um enorme quebra-cabeça. Como um bom folhetinista que o era, sugere pistas que ora parecem falsas, ora verdadeiras, de maneira que o leitor fica num suspense inevitável. O que ocorre é que Salustiano possui em seu poder uma carta muito comprometedora para Mariana, o que lhe serve como objeto de chantagem. Ambicionando a mão de Celina, Salustiano não custa a reconhecer no modesto Cândido um inimigo nada favorável a seus planos; por isso, valendo-se de sua escrava, ele não descansará até correr com o pobre Cândido do suntuoso “Céu cor-de-rosa”.

Vou parando por aqui com o enredo, mas já advertindo que tudo o que contei não compreende a décima parte da trama d’Os Dois Amores, que é de uma engenhosidade cativante e surpreendente, em especial por mostrar um Macedo mais ousado no tratamento de temas tabus para a época, como fornicação e aborto. Este título — Os Dois Amores — foi o que me inquietou bastante, enquanto tentava compreendê-lo. Ora pensava que estivesse relacionado com os amores de Celina e os de sua tia, que também são relatados no romance, ainda que numa proporção menor; ora associava-o ao triângulo amoroso Cândido-Celina-Salustiano; mas, finalmente, acredito que esses dois amores são os que existem simultaneamente no coração de Cândido: por Celina e por sua desconhecida mãe.

Devo confessar que o mais impressionante n’Os Dois Amores é a pureza que exala de suas páginas. A história parece o tempo todo ser contada por um anjo de luz de candidez e virtude incomparáveis. Não há como não se sensibilizar com a delicadeza com que o autor trata, mesmo nas digressões, dos sentimentos humanos. A pena de Macedo encheu o meu coração de uma alegria tão singela e me emocionou sobretudo com sua fé inacreditável no homem. Esse olhar divino, puro, casto... parece não existir mais. Essa crença na consciência escrupulosa, na remissão, na honestidade, na humanidade... parece não ter mais lugar neste mundo tão vil. Daí, pensei: “Que bom seria que as pessoas pensassem como Macedo que, mesmo um tanto ingênuo em algumas situações, era indiscutivelmente um homem probo e sincero”.

Dizer que tal romance é isento de falhas seria incerto, mas, sinceramente, diante de tanta beleza e sabedoria, não vejo por que apontar os exageros, os descuidos de linguagem, as falhas imperdoáveis sempre apontadas pelos críticos mais ranzinzas que estigmatizaram Macedo como um ordinário escritor de romances para moças. E Macedo escrevia mesmo para moças, e era consciente disso; lembremo-nos do prefácio d’O Moço Loiro. Machado e Aluísio, só para citar dois grandes gênios, também escreveram para moças. Macedo, assim como eles, soube ser transcendental. A grandiosidade de sua obra será sempre atestada por todo aquele que tiver um mínimo de sensibilidade no coração.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 22 de abril de 2017

MEU LIVRO - Em Algum Lugar... - Daniel Coutinho | Lançamento 2017!


"Em Algum Lugar..." finalmente foi lançado, no último dia 18, durante a XII Bienal Internacional do livro do Ceará.

Acabei de gravar um vídeo em que conto um pouco da experiência de escritura e publicação da obra, que já pode ser visto no canal "Literatura & EU".


Quem tiver interesse em adquirir um exemplar, faça seu pedido através do e-mail: autordanielcoutinho@gmail.com

Um abraço a todos do...

Daniel Coutinho

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Tulipa Negra (La Tulipe Noire), de Alexandre Dumas - RESENHA #47


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Sempre muito curioso pela obra de Alexandre Dumas, decidi começar minha experiência com o autor por uma obra fabulosa, hoje um tanto esquecida, A Tulipa Negra, que é um verdadeiro conto de fadas para adultos rsrsrs.

Poderia resumir facilmente esse romance em quatro palavras: injustiça, inveja, amor e fé, sendo esta última um elemento fundamental na condução do enredo. A princípio, um leitor mais exigente poderá julgar inverossímeis várias das passagens deste livro, julgando mesmo inadmissíveis tantas coincidências recorrentes na obra. Mas prevendo isto mesmo, o genial Dumas ampara-se na “fé” de que falei, atribuindo os acontecimentos mais incríveis do livro à intervenção divina. Este, pois, não é um livro para céticos.

O começo da narrativa pode apresentar certa dificuldade, pois nele o autor faz uma abordagem histórica sobre as transformações políticas na Holanda do século XVII. Essas mudanças incitam a invenção de intrigas capazes de colocar o povo holandês contra os irmãos Witt, líderes políticos do antigo regime. Revoltado e iludido por essas intrigas, o povo excuta o linchamento desses irmãos Witt, que tanto trabalharam pelo bem da Holanda. Temos aqui, portanto, a INJUSTIÇA, retratada numa cena cruel e espantosa.

Após essa introdução histórica, o autor concentra-se no real propósito do livro, que é contar a história do nobre Cornélius van Baerle, um sábio averso à política e amante das artes. Após encetar um minucioso estudo sobre vegetais e insetos, van Baerle apaixona-se pelo cultivo de tulipas. A partir daí, torna-se um tulipeiro excessivamente cuidadoso em reunir os mais diferentes tipos de tulipa existentes no mundo. Assim, sem o saber, acaba despertando a INVEJA de Isaac Boxtel, seu vizinho, que também é tulipeiro, mas que não dispõe dos mesmos recursos econômicos de van Baerle.

A inveja de Boxtel culmina quando van Baerle emprega todos seus esforços para obter a dificílima tulipa negra. A Sociedade Hortícola de Harlem oferece um prêmio de cem mil florins a quem conseguir cultivar com sucesso a rara tulipa totalmente negra e sem manchas. Após realizar vários experimentos, van Baerle finalmente obtém três cebolas capazes de gerar a tão sonhada tulipa negra. Nenhum de seus movimentos, contudo, passa despercebido ao invejoso Boxtel, que acaba descobrindo ainda que Van Baerle é portador de uma carta de um dos irmãos Witt, seu padrinho. Boxtel faz uma denúncia anônima e van Baerle acaba preso, acusado de ter sido cúmplice do padrinho, ainda que ignorasse inteiramente o conteúdo da carta confiada a seus cuidados.

Boxtel aproveita a prisão do vizinho para tentar roubar as cebolas da tulipa negra, mas não as encontra, pois van Baerle levara-as consigo para a prisão, sem que ninguém percebesse. Na cadeia, van Baerle conhecerá aquela que acenderá a chama do AMOR em seu coração: Rosa, a filha do odioso carcereiro Griphus. Desacreditado de sua inocência, van Baerle é condenado à morte, mas sua vida milagrosamente acaba sendo poupada e ele é enviado para outra prisão onde deverá passar o resto dos seus dias.

Quando estava ciente da morte no cadafalso, Van Baerle confiara suas valiosas cebolas à Rosa, deixando-lhe ainda um testamento que lhe garantisse a posse da recompensa pela tulipa negra. Mais uma vez os planos de Boxtel são frustrados, pois ele negociara os pertences do condenado, tão logo soubera da execução que, como já disse, nem aconteceu.

Em seu novo cárcere, tendo como única companhia os pombos, van Baerle planeja usar aqueles companheiros voadores como veículo de comunicação. Escreve uma mensagem para sua criada, pedindo que ela comunique Rosa sobre seu novo cárcere. Amarrando a mensagem num pombo, van Baerle espera que ela chegue a seu destino; e ela de fato chega. Tal como este, muitos acontecimentos “impossíveis” terão lugar nessa história, de maneira que, se o leitor não puder compactuar da FÉ de seu autor, desdenhará do livro certamente. A Tulipa Negra é um livro de fé, pois crê numa força maior capaz de recompensar os bons e castigar os maus.

Agora compreendo todo o culto a Alexandre Dumas. Seu estilo, longe de ser piegas, é simplesmente delicioso. Sua escrita é cuidadosamente elaborada com requintes de humor e ironia. Dumas sabe narrar como poucos, em boa prosa, conversando ocasionalmente com o leitor, tratando-o mesmo como a um amigo, nunca duvidando de sua inteligência (quem leu sabe do que estou falando rs). A Tulipa Negra é obra emocionante, de um romantismo inteligente, sutil e cativante. Não há como não se apaixonar por seus heróis ou não odiar os seus vilões. É um romance felizmente otimista que demonstra que a ingratidão e a inveja não são páreos para a fé e o amor.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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