quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A Estátua do Jorge, de Alberto Porfírio - RESENHA #28



Alberto Porfírio (1926-2009) foi um importante cordelista cearense e de reconhecimento internacional. Além de escritor, era professor, escultor e xilógrafo. De sua vasta produção cordelística, podemos destacar A Estátua do Jorge como um de seus folhetos mais populares.

Escrito em “linguagem matuta”, A Estátua do Jorge não segue uma estrutura fixa, possuindo estrofes de dois a nove versos, o que faz com que as rimas também variem em suas sequências rítmicas.

O folheto conta a história de Luiza, a moça mais bonita da Serra do Perêro, que aos quinze anos dedicou amor a seu primo Jorge, desprezando uma grande porção de pretendentes. Consumado o casamento, Luiza só pensa em ser uma boa esposa e ter logo um filho; Jorge, por sua vez, trabalha incansavelmente na roça, pois tem planos de comprar uma casa e um caminhão. Tendo apanhado uma chuva enquanto voltava do roçado, Jorge fica constipado, mas não abre mão de continuar trabalhando no ritmo costumeiro, o que faz agravar sua doença. Luiza tenta curar o marido inutilmente, até que ele vem a falecer.

Luiza, inconsolável, jura nunca amar outro homem. Para curar sua saudade, encomenda uma estátua de madeira do falecido Jorge, chegando a vesti-la com as roupas do finado. Lembrou-me até Encarnação, do José de Alencar rsrsrs, mas a verdade é que são obras com propostas completamente diferentes. Alberto Porfírio, com sua poesia matuta, propõe a reflexão de que o tempo faz esquecer tudo: “Quem num quizé sê isquicido/Si ajeite pra num morrê.”, diz ele. Assim, Luiza acaba deixando seu adorado “Jorge” na poeira, pois um interessante “freguês” começa a ocupar seu tempo. Tendo que preparar café para ele, avisada de que a lenha acabara, Luiza ordena à empregada: “Lasque o Jorge!...”.

Interessante, divertido, realista... A Estátua do Jorge é um verdadeiro mimo dessa tão admirável poesia popular, que é doce aos nossos ouvidos e tão a cara do meu Ceará.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

*** 

SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Mais Livros! - SET/2016



Se mês passado tivemos o mês das sagas, setembro foi o mês da literatura popular rsrsrs Coincidentemente, quase todos os livros adquiridos este mês são obras que foram criadas visando atingir o grande público ou pelo menos atingiram o mesmo fim, mas sem tal intenção. Há leitores que têm preconceito com obras massificadas, como eles mesmos as classificam. E eu também acabo me incluindo entre esses leitores, mas não radicalmente. Se um livro “modinha” chama minha atenção ou desperta o meu interesse, não tenho problema nenhum para lê-lo. O problema maior é que dificilmente isso acontece rsrsrs, e quando acontece não costuma ser com autores contemporâneos.

Mas passemos às aquisições! Não é segredo pra ninguém minha estima pela cultura do folhetim. Tenho romances de grandes folhetinistas como Eugène Sue, Xavier de Montépin, Ponson du Terrail e muitos outros. Mas sentia falta de um não menos importante: Enrique Pérez Escrich. Na verdade, já tinha um livro dele, O Mártir do Gólgota, mas não tenho interesse em conhecer a vida de Cristo num romance de folhetim. Para isso, já tenho a Bíblia. Queria um romance com argumento original. Por isso, escolhi Casamentos do Diabo, que é um dos mais famosos. Esse título é bem folhetinesco mesmo rsrsrs.

Saindo da Espanha, passando para Cuba, morria de vontade de ter a obra-prima do novelista Felix Caignet, O Direito de Nascer, que foi sucesso no mundo todo através do rádio e, posteriormente, na televisão. Minha edição é artesanal. Como a obra, até onde sei, só foi publicada uma única vez no Brasil, de forma seriada, na Revista Rádio-Teatro, nos anos 50, o jeito foi adquirir esses quatro volumes que enfeixam os 40 números da mencionada revista. A obra tem aproximadamente 2500 páginas, e é possível encontrá-la nos sebos ou pela internet (no mesmo formato da minha). Para falar a verdade, nunca assisti a nenhuma versão, nem aquela do SBT. Só lembro que falavam muito num D. Rafael, que era um homem bastante áspero. Adquiri mais a título de curiosidade mesmo, e meio que movido por uma necessidade de passar por uma experiência pela qual com certeza eu teria passado se tivesse vivido naquele tempo. Também acho esquisita essa minha paixão pelos costumes de passados longínquos, mas cada um com sua loucura, certo?

De Cuba para Inglaterra, passemos a Charles Dickens. Precisava, necessitava mesmo, de uma edição de Oliver Twist. Optei por essa da editora Abril, que achei muito linda. Adoro essas edições antigas da Abril/Círculo do Livro/Nova Cultural. Adquiri também o livro que deu origem ao filme mais reprisado da história da Sessão da Tarde rsrsrs. Estou falando de A Lagoa Azul, de Henry De Vere Stacpoole. Sou apaixonado por aquele filme e também pela sequência, De Volta à Lagoa Azul, que é baseado numa sequência do livro original. Descobri há pouco tempo que existia o livro e fiquei desesperado pra ter rsrsrs. Na verdade, Stacpoole publicou uma trilogia, mas infelizmente só encontrei o primeiro livro (em português). Melhor do que nada rsrsrs!

Chegando ao Brasil, temos o seguinte. Comprei uma raridade do Arthur Azevedo, a coletânea Contos Possíveis. Já tinha as obras teatrais dele; pretendo reunir agora sua prosa de ficção, a começar pelas mais inacessíveis. Não pretendia comprar as coletâneas de crônicas da Rachel de Queiroz (e ainda não pretendo), mas acabei levando A Casa do Morro Branco, por conter textos que mais parecem contos, embora a autora não os considerasse como tal. Estou querendo os livros infantis da Rachelzinha. Brevemente, vocês os verão por aqui!


Finalmente, para encerrar com chave de cacto, nada mais popular do que a literatura de cordel. Aprendi a gostar de cordéis por influência do meu pai, que recitava vários deles para mim, quando eu era criança. Adorava aquelas histórias acidentadas, cheias de fantasia e bom humor. Até que um dia tive a feliz lembrança de pesquisar sobre os folhetos que meu pai me contava, pois ele os tinha apenas na memória; nisso, soube da existência da editora Luzeiro, que edita livrinhos de cordéis e gibis. E não é que encontrei todos os que eu queria no catálogo deles? Aproveitei e acabei levando mais alguns, pela representatividade de seus autores para a história do cordel brasileiro. Abaixo, a lista dos 7 livrinhos:

> Rosinha e Sebastião (Manoel Pereira Sobrinho);
> A Vitória de Floriano e a Negra Feiticeira/O Feitiço por Cima do Feiticeiro (Manoel d’Almeida Filho);
> O Pavão Misterioso (José Camelo de Melo Resende);
> O Negrão do Paraná e o Seringueiro do Norte/O Encontro do Irmão do Negrão do Paraná com o Seringueiro do Norte (Francisco Sales de Arêda);
> A Chegada de Lampião no Inferno/A Grande Briga de Lampião com a Moça que Virou Cachorra/Peleja dum Cantador de Coco com o Diabo/O Prazer do Rico e o Sofrimento do Pobre (José Pacheco);
> Peleja de Manoel Riachão com o Diabo/Suspiro de um Sertanejo (Leandro Gomes de Barros);
> O Prisioneiro do Castelo da Rocha Negra (João Martins de Athayde).

O engraçado é que agora meu pai vive mexendo nas minhas estantes por causa desses cordéis. Só assim para fazê-lo ler rsrsrs.

Daniel Coutinho

*** 

SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto - RESENHA #27



Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) é daqueles livros que eu deveria ter lido pra escola e não li. Ainda bem que não li, pois tenho certeza que não teria gostado; não pelo livro ser ruim, mas porque não o compreenderia. Sempre curioso por Literatura, já naquela época, não tinha como não me deparar com o nome Lima Barreto. Assim, li a primeira obra dele que me caiu às mãos, que coincidentemente vem a ser seu livro de estreia: Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Lembro de tê-lo achado chato rsrsrs!!! Não entendia direito, a temática não me agradava; enfim, foi uma experiência tão horrível, que desde então, passei a fugir de Lima Barreto. Isso nos faz lembrar da grande porção de pessoas que tem aversão pela literatura brasileira, graças ao “incentivo” da escola. Eis uma questão para ser repensada: como trabalhar os clássicos no ensino básico. Mas passemos logo ao que interessa, que é meu reencontro com Lima Barreto e de como fiz as pazes (ou não) com ele.

Peguei o Policarpo já com um pé atrás pelo motivo que já citei, mas quando iniciei o primeiro capítulo, fui imediatamente tomado pelo livro. A caracterização do protagonista, muito correto e metódico, lembrou-me até o Phileas Fogg do Verne. Foi uma feliz surpresa. Mal acreditei que estava rindo com um livro do Lima Barreto; porque eu ri mesmo rs! Estava então fascinado por aquela escrita, quando veio a primeira queda. Pensei: agora Lima Barreto será de novo aquele chato do Isaías Caminha. Contudo, o livro logo recuperou o tom animado do início, mas em seguida, despencava de novo. Triste Fim de Policarpo Quaresma é o que chamo de livro-gangorra: ora alto, ora baixo. E é nesse curso volúvel que o romance segue até o final.

Não digo que seja um mau livro. O que me incomodou mesmo foram duas coisas: a primeira vem a ser a matéria do livro, permeada de política, com direito àquela atmosfera militar que me dá náuseas. Não gosto das temáticas política e guerra; as duas juntas então... A forte presença desses fatores na obra do Lima Barreto quase me fez desgostar do livro, mas não foi assim (e já explico!). A segunda foi a forte intenção de crítica social se sobrepondo ao ideal artístico. Essa justificativa explica muito bem minha aversão à literatura moderna, e devemos lembrar que Lima Barreto foi um escritor pré-modernista. O século XX é marcado por uma nuvem de escritores preocupados em denunciar os problemas nacionais, sejam políticos, econômicos, religiosos, etc. Sou dos que pensam que a literatura deve ser pura e laica, livre de partidos e de tendências influenciadoras. Daí, minha preferência pelos autores oitocentistas que, geralmente, mesmo quando tratam de política, usam-na como mero pano de fundo, não deixando em segundo plano o ideal artístico que é a obra literária em si.

A obra de Lima Barreto é sem dúvida tendenciosa e pretensiosa, o que viria a ser uma marca dos escritores daquela geração, assunto que já discuti na resenha de Madame Pommery. Policarpo Quaresma é um grito de revolta e denúncia contra a mediocridade das autoridades políticas do Brasil. O livro nem parece ficção em alguns momentos. Temos o governo Floriano Peixoto pintado com cores bem reais, figurando um Brasil onde as pessoas buscam crescer de qualquer forma, passando-se por aquilo que não são e esbanjando talentos que não têm. O insurgente Lima Barreto, talvez sem o querer, acaba escrevendo um romance autobiográfico, pois, assim como o Major Quaresma, foi um funcionário público incompreendido em seus ideais, que acabou enlouquecendo. Mas o mais surpreendente é como a obra literária, submergida em questões ideológicas, consegue sobreviver. A arte subsiste até o fim, ainda que em segundo plano, conforme me pareceu. É como se o próprio autor, ao longo do processo, percebesse que estava fugindo do ideal artístico, sentisse pesar a consciência e, para desculpar-se, assumisse uma postura mais literária. Tanto que mesmo os capítulos mais técnicos encerram com sinais de pura poesia.

A história, penso, todo mundo já conhece. Policarpo é um funcionário público que sofre de um patriotismo exacerbado, uma espécie de monomania pelo Brasil. Trata-se de um homem idealista que valoriza tudo quanto há em sua terra, sentindo profunda necessidade de “praticar” o seu ideal. Como o romance se divide em três partes, cada uma delas compreende uma dessas “práticas” do idealismo de Quaresma.

Na primeira, nosso visionário (como diz Floriano Peixoto) busca conhecer com propriedade nossa cultura popular, ao ponto de buscar aprender violão e os costumes indígenas. Na segunda, Policarpo se dedica à agricultura, disposto a comprovar a riqueza e fertilidade de nosso solo. Na última, ele busca servir sua pátria, num momento em que rebeldes se levantam contra o governo. Nessas três realizações, ele se frustra, pois não é compreendido. Policarpo não consegue se enquadrar ao perfil convencionado pelos “homens de sociedade”. Seu impetuoso desejo de enaltecer sua nação faz com que ele tenha atitudes pueris, responsáveis por levá-lo ao seu “triste fim”. Só duas pessoas compreendem Quaresma: Olga, sua afilhada que, também vítima das convenções sociais, casa com um homem ambicioso, embora não lhe dedique submissão; e Ricardo Coração dos Outros, trovador de modinhas que, mesmo sendo, a certa altura do livro, influenciado por interesses políticos, jamais abandona seu ideal artístico.

A leitura deste livro exige certa paciência daqueles que, como eu, não toleram política. Mas reitero a afirmação de que a arte subsiste nele o tempo todo, de tal forma que o Policarpo Quaresma ganha a total simpatia do leitor, que ri e que chora diante de seu tão puro e sincero idealismo.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

*** 

SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Lendas Brasileiras, de Câmara Cascudo - RESENHA #26



Num dos Mais livros! do blog, contei que não gosto de antologias. Me desagrada essa feijoada literária, principalmente quando não se menciona de onde foram amputados os textos. Por exemplo, já vi várias antologias com contos de Machado de Assis, onde são selecionadas as melhores histórias ou mais conhecidas, mas que não se preocupam em dizer que “Miss Dollar” pertence a Contos Fluminenses, “O Alienista” a Papéis Avulsos, “A Cartomante” a Várias Histórias, etc. A mim o que interessa é conhecer a obra original na forma concebida pelo próprio autor. É triste ver que muitas editoras desrespeitam a intenção do artista. No caso do Machado, muitos descartam as peças teatrais e crônicas que ele incluía em obras como Páginas Recolhidas e Relíquias de Casa Velha, deixando apenas os contos. Isso compromete a integridade do livro que certamente tinha um propósito com sua estrutura original. Perdoem esta introdução talvez maçante, mas, após ler Lendas Brasileiras, precisava confessar minha estima por edições que respeitam as formas legítimas das obras com seus mínimos detalhes: subtítulos, epígrafes, dedicatórias, advertências, notas, etc.

Quando adquiri este livro do Câmara Cascudo, não sabia que se tratava de uma antologia. Pelo menos a minha edição não traz nenhuma referência na capa, folha de rosto ou ficha catalográfica. Não que eu pensasse que Câmara Cascudo fosse o “autor” das lendas, mas achava que ele havia escrito as versões narradas. Só fui perceber que não era bem assim quando iniciei a leitura, que precisei consultar as notas. Essas notas, que estão ao final do volume, informam de onde foram tiradas as versões das lendas. Fiquei meio decepcionado a princípio, mas o interesse do livro foi mais forte. Ao prosseguir com a leitura, percebi que algumas lendas eram versões do próprio Câmara Cascudo. Assim, das 21 lendas, 10 são da lavra do “autor/organizador”. As outras 11 lendas foram transcritas de diversas obras, algumas bem raras, outras de escritores regionalistas famosos como Simões Lopes Neto e Afonso Arinos. Então, me digam se isso é uma antologia, porque eu já não sei rsrsrs!

O certo é que este livro é sensacional e riquíssimo. Quem curte ou estuda literatura regionalista precisa ler Lendas Brasileiras. Mesmo com essa inesperada capa antológica, a leitura foi uma experiência tão agradável e enriquecedora, que me surpreendeu, pois julgava essa obra como mero passatempo que me serviria para descansar o cérebro do tumultuado Wuthering Heights. A leitura também serviu para suprir uma necessidade crescente de literatura regionalista que sobreveio em mim nos últimos tempos. Trata-se mesmo de uma coletânea riquíssima que contempla a “mitologia” das cinco regiões brasileiras.

Advirto aos leitores desavisados que não se assustem com a lenda de abertura que é “A lenda da Iara”. Trata-se de um texto do século XIX de João Barbosa Rodrigues, que foi um grande estudioso do folclore indígena. Muita gente abandona esse livro por causa dessa primeira lenda que é praticamente escrita em tupi rsrsrs. De fato, é a mais trabalhosa para se ler, por ser repleta de termos indianistas e expressões regionalistas do Amazonas. É importante frisar que as lendas estão separadas por região, e que a linguagem delas se adequa a partir dos regionalismos típicos de cada lugar. Não obstante suas dificuldades, “A lenda da Iara” é das mais belíssimas do livro, sendo que o que mais me incomodou foi o fato das notas estarem dispostas ao final do volume. Nada como um prático rodapé, não acham? O interessante é que sempre encarei “lenda” como um gênero infantil, em decorrência do estudo sobre elas nas primeiras séries escolares; a obra de Câmara Cascudo modificou essa minha visão tão equivocada.

Não vou falar aqui das 21 lendas, mas gostaria de assinalar as que mais gostei e as que me pareceram menos interessantes. Curiosamente, as que são contadas pelo próprio Câmara Cascudo são justamente as que não me agradaram tanto, salvo algumas exceções. “Cobra Norato” é uma delas. Conta o curioso caso da mulher que pariu duas cobras: uma boa, outra má. A boa é a cobra Norato, que precisa que alguém realize um ritual para transformá-lo definitivamente em homem. “A cidade encantada de Jericoacoara”, de Olavo Dantas, conta sobre uma cidade escondida sob o serrote do farol, onde está encerrada uma princesa. Assim como em “Cobra Norato”, existe um ritual, desta vez com o fim de libertar a princesa.

“As mangas de jasmim de Itamaracá”, de Francisco Augusto Pereira da Costa, refere o triste caso amoroso de um homem que, após receber uma negativa dos pais de sua amada, decide ser padre. Anos depois, reencontrando a moça, a mesma acaba morrendo ao descobrir o destino sacerdotal de seu amado, que sobre o túmulo dela planta a mangueira de onde nascem as celebradas mangas de jasmim de Itamaracá. “O frade e a freira”, versão de Câmara Cascudo, conta a famosa lenda capixaba sobre dois religiosos que se apaixonaram e, como castigo, foram transformados em duas estátuas de pedra que ficam localizadas à margem do rio Itapemirim, no Espírito Santo. “O sonho de Paraguassu”, de João da Silva Campos, remete à figura histórica de Diogo Álvares, o Caramuru, contando sobre o providencial sonho de sua esposa que ajudou a salvar uma porção de náufragos e uma imagem da Virgem Maria.

Tive também a felicidade de reler “O negrinho do pastoreio”, de Simões Lopes Neto, que já tinha lido em Lendas do Sul, há bastante tempo. É outra lenda que apresenta dificuldade pela quantidade de regionalismos, mas que nem por isso deixa de ser interessante. Essa lenda, que é a mais tradicional do Rio Grande do Sul, conta a história de um menino escravo que vivia sendo maltratado pelo seu senhor e pelo filho dele. Num dos violentos castigos, o negrinho acaba morrendo e seu corpo é jogado num formigueiro. No dia seguinte, ao passar pelo formigueiro, o senhor tem um grande susto, ao ver o negrinho ressuscitado por obra de Nossa Senhora, a madrinha de todos os órfãos. O negrinho do pastoreio passa a vagar pelas florestas como um espírito que vive de ajudar as pessoas a encontrar objetos perdidos. Nem preciso dizer o quanto amei essa releitura. Finalmente, “Romãozinho”, em versão de Câmara Cascudo, encerra a coletânea com chave de ouro, contando a história deste irmão do saci-pererê. Romãozinho é um menino endiabrado que acaba provocando a morte dos pais por conta de uma calúnia. Antes de morrer, a mãe o amaldiçoa para que nunca cresça e jamais tenha direito ao céu ou ao inferno. Assim, ele torna-se um imortal encrenqueiro, sempre com a mesma aparência, a perturbar todos quanto possa.

Poderia citar outras tantas lendas agradáveis, uma vez que esse livro é quase 100% perfeito. Por muito pouco não lhe dei nota máxima e faço questão de deixar isso bem claro. Como já referi, as lendas contadas pelo próprio Câmara Cascudo me pareceram as menos interessantes. Não estou dizendo que são ruins, porque não são mesmo, mas seu estilo narrativo não me agradou tanto quanto o dos demais folcloristas encerrados nessa coletânea. As lendas “A morte do Zumbi” e “A serpente emplumada da Lapa”, ambas em versões do idealizador dessa coletânea, são as mais chatinhas do livro. A primeira conta o suicídio de Zumbi dos Palmares, fato totalmente desmentido pela História. Senti falta daquele elemento misterioso que faz o leitor cogitar hipóteses fantasiosas... Quanto à outra lenda que citei, foi o enredo que me pareceu sem graça rsrsrs e até indigno de figurar nesse livro tão delicioso.

No mais, quem tiver oportunidade de ler esta quase-antologia, leia, porque, de fato, vale a pena mesmo! E eu que só queria um passatempo... rsrsrs!

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

*** 

SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com