segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O Diário de Anne Frank - RESENHA #23



Antes de mais nada, não sou leitor desse tipo de livro. Já contei por aqui que não costumo ler não ficções. Devo confessar também que odeio narrativas de guerra. Por que então li este livro? Vou contar. Há alguns anos, assisti um filme, Escritores da Liberdade, com aquela linda da Hilary Swank. Ela interpretou uma professora que tem o grande desafio de assumir uma turma de jovens muito problemáticos. Acho que todo mundo já viu um filme assim rsrsrs... Pois bem! O caso é que a tal professora, para incentivar sua turma ao processo de leitura e escrita, utilizou a famosa obra O Diário de Anne Frank, o que deu muito certo. Desde então, fiquei bastante curioso pelo livro, que já conhecia, obviamente, de ter ouvido falar. Quem nunca se deparou na vida com o nome Anne Frank? Já sabia que se tratava das anotações de uma menina que morreu durante a Segunda Guerra; por isso mesmo, nunca quis ler rsrsrs. Mas depois do filme da Hilary, que é inclusive baseado em fatos reais, incluí Anne Frank à minha interminável lista de futuras leituras.

Agora que li, estou profundamente tocado por esse livro depressivo. Os fãs de Anne Frank vão me matar agora rsrsrs! Mas sério: esse livro é bastante perturbador e de uma atmosfera agonizante. Portanto, quem estiver triste, se sentindo mal ou melancólico, fuja desse livro! Definitivamente não é um livro ruim; mas chega a ser tão triste, que incomoda, sobretudo pela consciência de que tudo aquilo aconteceu mesmo. Fiquei muito em dúvida quanto a fazer esta resenha. Pareceu-me muito difícil separar o livro em si de toda a história real envolvida. Pensei: este livro não pode estar sujeito à crítica; ele não é uma obra de arte; trata-se de um documento histórico materializado nas páginas do diário de uma adolescente. Por outro lado, senti grande necessidade de externar minhas impressões de leitura, ainda que não tenham sido exatamente positivas. Portanto, quero deixar claro que estou lidando apenas com o livro em si, o texto escrito, desconsiderando todo o exterior que pesa sobre ele. Dessa forma, penso ser mais fácil avaliar a obra de Anne Frank.

O livro, como já se sabe, é um diário autêntico. Anne Frank ganhou-o em seu aniversário de 13 anos, em 12 de junho de 1942. No mês seguinte, ela é obrigada a partir, juntamente com a família, para um esconderijo que passa a ser denominado de Anexo Secreto. A família de Anne é de judeus; assim, as perseguições de Hitler, que já tinham obrigado os Frank a emigrar da Alemanha, também foram responsáveis por aquela situação de escondimento, agora em Amsterdã, na Holanda. O Anexo Secreto constitui a parte superior do prédio onde trabalhava Otto Frank, o pai de Anne. A família conta com o apoio dos funcionários do prédio para manterem-se escondidos, além de aceitarem dividir o espaço com outra família judaica: os van Daan.

Julgo necessário especificar a constituição das duas famílias. Então, lá vai:

Família Frank Otto Frank (pai); Edith Frank (mãe); Margot (filha mais velha); Anne (filha caçula).
Família van Daan Hermann van Daan (pai); Petronella van Daan (mãe); Peter (filho único).

A essas sete pessoas, junta-se, pouco tempo depois, o senhor Albert Dussel, um dentista que vivia com uma cristã, e que também precisava se refugiar. A convivência desses oito enclausurados do Anexo Secreto é o assunto predominante no diário de Anne. Ficava sem fôlego só de imaginar a situação: não poder sair de um lugar até que terminasse uma guerra cujo fim não se podia precisar. Sufocante, não? Imaginem o tédio, a dificuldade de convivência, as restrições de todo tipo, sem contar com o constante medo de ser descoberto a qualquer momento! Por isso que digo: este livro é perturbador!

Os primeiros registros de Anne foram feitos antes da fuga para o Anexo. Neles, conhecemos uma Anne bem chatinha e meio superficial ao julgar seus colegas de escola. É sem grande novidade essa primeira parte do diário, mas serve para constatarmos que Anne não era mais do que uma adolescente normal, com seus problemas e dilemas típicos da idade. O primeiro terço do livro é bem chatinho de ler; se bem que o livro todo é bastante cambiante: ora fica superinteressante, ora prende-se a descrições triviais, ora tende a ser muito sentimental e reflexivo, ora serve para Anne despejar sua raiva... A leitura como um todo não é ruim, mas a mim não empolgou muito. A escrita de Anne é, por vezes, muito atropelada, e ela mesma reconhece isso para Kitty, nome que ela dá ao diário.

Ficava impaciente com os conflitos familiares. Anne era a ovelha negra da casa. Ela simplesmente brigou com todo mundo do Anexo rsrsrs. No diário, ela se mostra vítima, mas fica bastante evidenciado seu temperamento difícil. Ela geralmente não explica muito bem como se davam as contendas familiares, limitando-se a queixar-se de todo mundo, principalmente de sua mãe. É triste a maneira como Anne se refere à própria mãe. Um adolescente que lesse o diário de Anne ficaria logo do lado dela e talvez super se identificasse. A verdade é que não podemos esquecer que Anne era só uma adolescente e, como tal, era comum que entrasse em atrito com os pais. O ressentimento de Anne não se limita à mãe, mas a praticamente todos do Anexo. Dava para perceber que ela tinha uma invejinha da irmã mais velha, Margot, que era uma menina-prodígio.

É bem verdade aquilo que diz que o sofrimento faz amadurecer as pessoas. Anne é prova disso. Seu amadurecimento é plenamente visível ao longo do diário, o que a faz censurar seus primeiros escritos e reconhecer seus defeitos, como também a necessidade de melhorar enquanto pessoa. E Anne muda. Prova disso é que seu relacionamento com todos fica muito mais estável a partir dos registros de 1944. Temos então uma Anne simplesmente linda e apaixonada. A convivência e os instintos da idade fazem-na se apaixonar por Peter, o filho dos van Daan. O relacionamento entre eles começa por uma bela amizade e, aos poucos, vai tomando outra forma, na medida em que os dois passam a ter mais confiança um no outro. O despertar da sexualidade de Anne é relatado sem pudores por ela, fazendo com que essas passagens fossem censuradas nas primeiras edições em livro, divulgadas por seu pai, que foi o único sobrevivente entre os moradores do Anexo Secreto. Após a morte de Otto Frank, uma investigação rigorosa foi feita sobre os manuscritos de Anne, conferindo-lhes autenticidade e coletando bastante material inédito, divulgado a partir de 1989.

As anotações de Anne sobre seu romance com Peter são maravilhosas; são das minhas favoritas, a perder somente para os escritos de Anne em que a mesma valoriza as pequenas coisas à sua volta: o sol, a lua, a natureza, reconhecendo mesmo não serem coisas pequenas, mas motivadores à sensação de felicidade que ela tanto aspirava. Ocasionalmente, temos uma Anne mais fragilizada e sensível à terrível situação vivida por todos ali; de maneira que reaparece a adolescente ressentida com os pais, que quer ser feliz à sua maneira, sem ter que dar satisfação a ninguém. Também aparecem, ocasionalmente, as descrições de situações triviais que me pareceram muito maçantes. Assim, como já disse, o livro é todo bastante cambiante, alternando constantemente a tonalidade do texto.

Algo que me pareceu bastante interessante, agradável e curioso foram as estratégias utilizadas pelos moradores do Anexo para passar o tempo. Sem nada para fazer além de prestar pequenos serviços aos funcionários do prédio, eles liam, estudavam, faziam cursos por correspondência, aprendiam idiomas e ouviam o rádio. Basicamente isso. Anne, que inegavelmente tinha talento para escritora, desejava ser jornalista e rabiscava vários contos e romances. Ela chega a contar o enredo de um deles, inspirado na história de seu pai que, como ela sabia, casara sem amor. Fico me perguntando se Anne faria sucesso como escritora se não houvesse morrido no Holocausto.

A história de Anne Frank é, sem dúvidas, comovente. Quando li a última página do diário, tive uma sensação tão esquisita, como se Anne não tivesse morrido há mais de setenta anos, mas àquele mesmo momento. Seu último registro dá mostras de uma autoconsciência admirável. Seus desejos, suas culpas, seus receios, seus sonhos... Tudo foi tão bruscamente interrompido, como as anotações de seu diário, cujas páginas, soltas pelo sótão, jamais teriam uma continuação.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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