quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Saint-Clair das Ilhas (St. Clair of the Isles), de Elizabeth Helme - RESENHA #3




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Saint-Clair das Ilhas foi mais um dos romances lidos por Alencar em sua primeira fase leitora. Machado de Assis é outro que cita essa obra em livros como Quincas Borba e Casa Velha. De sua autora, a inglesa Elizabeth Helme, quase não se tem registro, até com relação ao ano de seu nascimento e morte. Terá ela existido de fato; ou será que se trata de uma escritora fantasma? Mas, enfim, quem pode provar que não foi Homero quem criou Odisseia; ou que não é Shakespeare o autor de Otelo? A literatura está cheia de fatos obscuros.

Nesse caso, vamos acreditar que Elizabeth Helme publicou Saint-Clair em 1803, conforme consta. Pude ler esse livro graças ao site “Caminhos do Romance” que, ao que sei, fazia parte de um projeto da Profª Drª Márcia Abreu da UNICAMP. A edição digitalizada corresponde provavelmente à mesma lida por Alencar, a julgar pelo ano de publicação: 1827, ou seja, antes mesmo do autor de Iracema vir ao mundo. Trata-se de uma edição portuguesa da tipografia Rollandiana, traduzido do francês de Isabelle de Montolieu por António Vicente de Carvalho e Sousa. Provavelmente, deve ter havido também alguma outra edição brasileira em livro ou como folhetim de jornais da época. Essa referida edição portuguesa foi tudo o que obtive em nosso idioma.

Saint-Clair das Ilhas conta as desventuras do jovem escocês Saint-Clair Monteith. Sua mãe, Mariana Monteith, o concebeu antes do casamento. Como era exemplo de virtude e nobreza, teve de encobrir seu nascimento e fez um trato com sua criada Katy, para que ela assumisse a maternidade da criança, em troca de benefícios permanentes em dinheiro, mas com a condição de que nunca fossem revelados os verdadeiros pais do menino que recebeu o nome de Saint-Clair, em homenagem à santa do dia de seu nascimento, Santa Clara. Katy entrou em acordo com seu noivo Mac-Crai, e os dois foram para longe com o recém-nascido.

Mariana finalmente casa com o conde de Roskelin, a quem conta que seu filho nasceu morto. Eles têm outro filho, desta vez legítimo e com todos os direitos, e lhe dão por nome John Roskelin. O destino, porém, conduz o irmão de Mariana, que é um militar aventureiro, à casa de Mac-Crai. O grande Chefe Monteith logo simpatiza com o filho daquele casal e convence seus pais de levá-lo numa excursão que lhe serviria de grande aprendizado. Na casa do Chefe, ocorre o inevitável encontro entre o garoto e Mariana Roskelin, que escreve à Katy imediatamente, ordenando que ela mande buscar Saint-Clair, temendo ser descoberta. Katy manda Mac-Crai buscar o garoto, mas quando chega à casa do Chefe, este oferece-lhe uma proposta bastante benéfica em troca da permissão de que coordene a formação de seu pupilo a longo prazo. Mac-Crai, ciente do juramento feito à condessa de Roskelin, hesita em aceitar, mas cheio de remorsos de consciência, decide contar toda a verdade ao Chefe, que custa acreditar em tamanhas calúnias levantadas sobre sua irmã, mas uma carta da condessa (endereçada à Katy) o convence finalmente.

O Chefe previne sua irmã de que tomou conhecimento sobre seu segredo, mas ela persiste em negar, e o conde de Roskelin, de caráter pusilânime, não duvida de sua palavra. As recriminações do Chefe, indignado pela mãe que abandona e não reconhece o próprio filho, não causam maior efeito; por isso, ele decide preservar o segredo, a fim de evitar o escândalo, mas toma para si a guarda do sobrinho, e decide fazer dele seu herdeiro universal. Quando o Chefe Monteith morre, Saint-Clair, já adulto e a par de sua situação, assume o castelo de seu adorado tio. Seu grande desejo agora é desposar Eleonora, uma bela jovem que salvara de um incêndio e da falência (pagando as dívidas de seu pai), mas a moça e seu pai ambicionam a fortuna dos condes de Roskelin; e Eleonora, mesmo comprometida com Saint-Clair, recebe os cortejos de lord John. Furioso, Saint-Clair decide raptar a moça, para que lhe dê uma explicação, uma vez que teve sua entrada vetada na casa dela. Eleonora confessa ter descoberto pela família Roskelin que Saint-Clair não é um legítimo Monteith, mas que seus verdadeiros pais se aproveitaram da inocência do velho Chefe, fazendo-o acreditar numa calúnia infundada, para obterem a herança que, por direito, correspondia aos condes de Roskelin.

Saint-Clair, desolado com tanta infâmia e ingratidão, devolve Eleonora, mas é intimado perante o Rei pelo pai da jovem, e pelos condes de Roskelin que agora estão dispostos a requerer a herança “usurpada” por Saint-Clair. O jovem guerreiro é julgado e perdoado pelo Rei pelo crime de rapto, mas condenado a pagar determinada multa; quanto a ter usurpado a herança de Monteith, a conduta “sempre exemplar” da condessa fazem todos acreditar que o velho Chefe foi de fato iludido. Assim, Saint-Clair, além de ter os bens confiscados, é desterrado à ilha de Barra, nas Hébridas. Ele resigna-se, mas quando é solicitado que entregue sua espada, ele toma a atitude por uma afronta, e rebela-se; seus mais fiéis companheiros, conhecendo o perigo, ajudam-no. Essa ajuda amiga só serviu para que fossem desterrados juntos com Saint-Clair. Na ilha, nosso herói cria uma fortaleza e é logo admitido como Chefe perante os ilhéus. Seu único desejo agora é vingar-se de seus inimigos e recuperar tudo o que lhe foi tão vilmente roubado.

Que história e tanto, né? Assim como Oscar e Amanda, é de tirar o fôlego, mas ainda fico com o romance da Regina Roche. Concordo, porém, que esse livro é outro que foi esquecido injustamente. Que história, gente! E tudo que contei aparece apenas em uma das três partes do livro, que é a 2ª. A 1ª e a 3ª são posteriores, porque o romance se inicia In medias res (quando a narrativa começa pelo meio). Os defeitos que posso assinalar são os constantes exageros e rasgos de heroísmo desmedido, mas deve-se levar em conta que esse tipo de livro visava atender o gosto das grandes massas. Em Oscar e Amanda, também houve exageros, mas em Saint-Clair das Ilhas, a autora constrói a imagem de um herói que é um verdadeiro deus: inatingível, invencível, poderosíssimo. Em compensação, se reclamei dos chororôs de Amanda no livro da Roche, neste outro, temos uma figura feminina, Ambrozina, que dá um show à parte, mas que alimenta uma paixão recíproca daquelas “sem você, eu morro” que é bem difícil de acreditar. No mais, os outros problemas que encontrei foram da edição e não da obra. Além da digitalização estar em péssima qualidade (em muitas páginas), a tradução portuguesa é bastante falha e problemática em algumas passagens. O formato de romance dessa época foi outra dificuldade que encontrei. As falas dos personagens não são identificadas por travessão, não há uma separação entre a voz do personagem e a voz do narrador, além do que os discursos direto e indireto se confundem em vários momentos. Tudo isso dificultou bastante a leitura, sem contar umas 30 páginas que tive que ler em espanhol, porque a digitalização da 1ª parte está incompleta. Mas se me perguntarem se valeu a pena, afirmo que valeu demais.

Assim, se você é um leitor que curte uma história de época (século XV) com muita aventura, ação e romantismo entrelaçados, num cenário exótico e um enredo fabuloso, deve fazer sim um esforço pra ler este livro que é sensacional!

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

DOWNLOAD! Conto raro de José de Alencar

José de Alencar não foi contista. Mesmo seus romances mais breves: "Cinco Minutos" e "A Viuvinha" não podem ser considerados contos. Contudo, revirando sua bibliografia, descobri esta composição esquecida: "Lembra-te de Mim", provavelmente o único conto escrito por ele, e que serviu de introdução à coletânea "Noturnos" (1872) de Luís Guimarães Júnior, um contemporâneo seu.

Infelizmente, não pude localizar essa obra para baixar, muito menos para comprar. A salvação foi que, pesquisando mais um pouco, deparei-me com uma referência de que o conto único de Alencar fora publicado num periódico do Rio de Janeiro (Folha do Domingo).


Imediatamente, acessei a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional e encontrei a raríssima produção, publicada apenas nessas duas ocasiões. Como a qualidade da digitalização não estava das melhores, decidi editar o texto, e resolvi compartilhá-lo em PDF com quem se interessar por ler esta relíquia. É uma historinha impregnada daquele romantismo bem açucarado, mas com ser o único conto que se tem notícia do autor de "Iracema", vale a pena conferir.
Apreciem e compartilhem!

Conto Lembra-te de Mim (José de Alencar) DOWNLOAD AQUI!


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TOP 10 - MELHORES LEITURAS DE 2015!!!

Bom... 2015 foi digamos que meio a meio em se tratando de leituras: umas boas, outras mais ou menos, algumas péssimas rsrsrs. Por isso, separei os 10 melhores livros lidos em 2015. O melhor é que tem de tudo: romance, conto, teatro, etc Vamos lá, então...
# 10º lugar → DECADÊNCIA DE UMA GERAÇÃO, de Angélica Coelho
Embora tenha comentado que não apreciei muito a obra desta escritora cearense dos meados do século passado, tenho que confessar que de todos os seus romances, este foi o menos ruim e que, apesar dos pesares, teve seus bons momentos.

# 9º lugar → RELICÁRIO DE UMA LUA, de Luana Pereira Brito
Que livrinho mais fofo o da minha amiga Lu! Eu, particularmente, não me dou muito bem com versos, mas ultimamente, tenho tido boas surpresas com a poesia, e este livro foi uma delas. O mais interessante nesta obra é a criatividade no processo de criação dos poemas. O poema "o carlosalberto" é um bom exemplo do que estou falando. Isso do texto todo disposto em minúsculas (inclusive na capa) me incomodou um pouco no começo, mas logo percebi que era mais um dentre tantos artifícios da poetisa.

# 8º lugar → GATOS AMIGOS PRA CACHORRO, de Domenico Savio Rocha Cavalcante
É incrível como o autor consegue humanizar os gatos, inserindo-lhes uma personalidade própria em cada um deles. Achei isso genial. Nunca tinha visto algo semelhante. Porque vários autores imortalizaram animais na Literatura, mas nunca na mesma proporção que o Domenico fez. É uma gatarada sem fim rsrsrs O único problema é que, às vezes, as histórias parecem estar se repetindo, porque vida de gato... é aquilo que todo mundo já sabe. Mas a diversidade de gêneros cultivados, inclusive os desenhos traçados pelo próprio autor, além das diversas curiosidades aprendidas sobre o universos dos gatos, garantem a inclusão deste livro neste TOP10!

# 7º lugar → O PECADO DAS MÃES (Les Âmes Closes), de Henri Ardel (pseudônimo de Berthe Abraham)
Este romance francês não é tão bobo quanto parece. Apesar de ser um daqueles romances para moças do século passado, e de estar numa tradução bem ruim, a história é bastante sugestiva e narrada de uma maneira bem sutil: é como se a autora reunisse pequenos romances em um só, todos com o único propósito de criticar a maneira distanciada como muitas mães criavam suas filhas. Não foi uma obra-prima, mas foi agradável.

# 6º lugar → FUTILIDADE (Futility), de Morgan Robertson
Eis a novela que antecipou a tragédia do Titanic, sendo que foi publicada 14 anos antes do desastre de 1912. As coincidências são assustadoras, começando pelo nome do navio fictício: Titan. Convém, contudo, admitir: não fossem essas coincidências tenebrosas, este seria mais um livrinho romântico; não que seja ruim, mas está longe de ser uma obra grandiosa. Seu valor está mais no exotismo apresentado, como na cena em que o protagonista luta com um urso polar, em pleno gelo. O final ambíguo também merece destaque.

# 5º lugar → TEATRO COMPLETO, de Machado de Assis
Não, Machado não foi um grande dramaturgo. Algum crítico (que não lembro agora) já disse que suas peças estão mais para serem lidas, que encenadas. Não concordo totalmente. Algumas peças ficariam muito bem no palco, como "Lição de Botânica". Outras como "O Protocolo" são mais agradáveis para leitura. No geral, gostei da maioria das peças. Destaque para, além das já citadas, "Hoje Avental, Amanhã Luva", "Tu Só, Tu, Puro Amor..." e "Quase Ministro".

# 4º lugar → DÔRA, DORALINA, de Rachel de Queiroz
Gente, como eu estava com saudades de Rachel. Só tinha lido "O Quinze" e achava que já sabia tudo dela. Ler "Dôra" foi uma experiência maravilhosa. Não é um romance perfeito, concordo, mas é de uma naturalidade tão real, tão humana. É daqueles livros bem verídicos, mas a própria Rachel confessou em vida que sua ficção é toda real, que os próprios personagens são inspirados em figuras reais. Com altos e baixos ao longo da história, eu destaco a 1ª parte, "O Livro de Senhora", como o melhor texto desta obra. Sensacional!

# 3º lugar → O PEQUENO PRÍNCIPE (Le Petit Prince), de Antoine de Saint-Exupéry
Quando terminei de ler este livro, lamentei não tê-lo lido antes. Não me interesso muito por livros que viram moda, que todo mundo quer ler. Sou um leitor curioso por aquilo que está perdido, abandonado, esquecido, mas devo admitir que este livro é digno de todo o mérito que lhe conferem. Lamentei não ter lido antes, ao mesmo tempo que apreciei ter lido com uma maturidade que antes poderia ter me faltado perante este que está longe de ser um mero e ingênuo livrinho infantil. Acho que todo mundo deveria ler esse livro.

# 2º lugar → OSCAR E AMANDA (The Children of the Abbey), de Regina Maria Roche
Espetacular este romance dessa autora irlandesa que foi lida pelo próprio José de Alencar em sua adolescência, conforme relata em "Como e Porque Sou Romancista". É um conto de fadas da vida real. É um clichê diferente. É uma história que você jura que já viu em algum lugar, ao mesmo tempo que te surpreende por ser inédita pra você. Daí, você percebe que, visto o ano de publicação, este livro serviu de modelo a tantos artistas que perduram até hoje (principalmente na televisão), e está tão injustamente esquecido. É aquele livro que você quer dividir com todo mundo e não pode.

# 1º lugar → CONTOS AVULSOS, de Machado de Assis
Não dei 1º lugar a este livro só por ser Machado. Se não o desse, estaria sendo injusto. Ainda hesitei entre este e "Oscar e Amanda", mas analisando bem, a grandiosidade desta obra vai além de quase tudo que já li na vida. E não estou falando das obras-primas de "Várias Histórias", "Papéis Avulsos" etc. "Contos Avulsos" é uma publicação póstuma que reúne 114 contos que não foram incluídos por Machado nas coletâneas oficiais. Foram recolhidos diretamente dos periódicos da época e publicados na "Obra Completa em 4 volumes" da Ed Nova Aguilar. Um Machado que poucos leitores conhecem e que não é menos surpreendente. Destaque para os contos: "Questão de Vaidade", "A Pianista", "O Último Dia de um Poeta", "O Carro nº 13", "O Anjo Rafael", "O Capitão Mendonça", "Almas Agradecidas", "Rui de Leão", e muitos outros. A grande quantidade com qualidade é assombrosa nesta compilação. É 1º lugar com certeza! 


Daniel Coutinho
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Dôra, Doralina, de Rachel de Queiroz - RESENHA #2

Rachel de Queiroz é uma das mais aplaudidas escritoras cearenses. Seu romance O Quinze já é um clássico da literatura brasileira. Mas escreveu outros tão interessantes quanto, embora menos conhecidos do grande público.

Dôra, Doralina (1975) é um romance digno de aplauso, seja pela realidade tão viva de suas páginas, como pela simplicidade e naturalidade de suas cenas tão interessantes. O sucesso na época do seu lançamento foi tanto, que ganhou uma versão cinematográfica nos anos 80, onde Vera Fischer encarnou Dôra. Foi o 2º romance que li de Rachel (nem preciso dizer que o 1º foi O Quinze, né?) e confesso que fiquei com certa insaciedade. Quero dizer que, se já admirava Rachel antes, depois que li esse livro, passei a respeitá-la muito mais enquanto romancista. Agora, difícil vai ser resenhar este livro sem dar spoiler. Mas vai dar certo rsrsrs

O livro está dividido em três partes: O livro de Senhora, O livro da Companhia e O livro do Comandante. Confesso que dos três, o que mais me empolgou foi o primeiro; não que os outros sejam ruins, mas essa primeira parte é encantadora para todo e qualquer nordestino. As descrições dos costumes, dos tipos e tradições do século passado são apresentados com tanta beleza, que enquanto lia, ficava lembrando da casa dos meus avós. O mérito de Dôra não está diretamente ligado ao poder de fabulação e criação de enredo de sua autora, mas a meu ver, a linguagem regional e a viveza de seus tipos situados em circunstâncias bem verossímeis, fazem desse livro uma obra-prima. Mas vamos à história?

Maria das Dores ou simplesmente Dôra, como lhe chamam, é uma jovem de vida simples que vive na fazenda Soledade, em Aroeiras, no interior do Ceará. Órfã de pai desde criança, Dôra vive na companhia de sua mãe, a quem todos chamam de Senhora; de Xavinha, uma parenta moça velha que é mais empregada que membro da família; além dos criados e cunhãs de Senhora.

É Dôra quem narra a história e o primeiro fato importante que faz conhecer é o péssimo relacionamento que tem com Senhora. Essa discórdia não tem um determinado motivo sólido, mas apenas pequenos detalhes que contribuíram para tal aversão entre elas. Dôra queixa-se desse seu nome que julga terrível e que pensa ter sido dado de propósito para castigá-la, embora Senhora alegue que seu nome é resultado de uma promessa que fizera em virtude do parto complicado que tivera. Outro motivo de desavença entre as duas é que Senhora evita sempre falar de seu falecido esposo, o pai de Dôra. O pouco que sabe a seu respeito é proveniente de informações obtidas dos empregados da fazenda, especialmente Xavinha.

A vida pacata na fazenda Soledade é interferida quando Senhora precisa resolver uma questão com um vizinho (acerca de terras). Eles mandam chamar Laurindo, o agrimensor, que em contato com a fazenda Soledade, acaba conhecendo Dôra. Os dois acabam se casando não exatamente por um imenso amor que se gerou entre eles, mas por uma questão meramente social. Não estou dizendo que se repudiavam, mas deixo claro que a relação entre eles é mais uma questão de convenção familiar. Casados, ficam morando na Soledade. Formam aparentemente um casal comum; até que... 

Daqui pra frente, não tem como prosseguir sem dar spoiler; e se avançar algumas passagens, o enredo não será devidamente compreendido. Só garanto que uma daquelas cenas surpreendentes e reveladoras sucede ao ponto que interrompi e que, é claro, não vou revelar. Só adianto que um personagem misterioso por nome Delmiro está bastante envolvido no caso, e... Já chega por aqui.

Dôra é certamente um livro delicioso. O único senão que posso apontar é a 2ª parte da obra, O livro da Companhia, que embora não seja ruim, dá muito espaço a outros personagens como Seu Brandini, dono de uma companhia teatral e plagiador de peças estrangeiras. É que depois de tanta empolgação na 1ª parte, a história fica um pouco lenta, mas se recupera (ainda que não o suficiente) na 3ª parte dedicada a outro personagem de extrema importância para o livro, que é o Asmodeu ou simplesmente Comandante.

Fica então a dica deste livro surpreendente, que me deixou com uma disposição incrível de ler as outras obras de Rachel. Para este ano, já reservei Memorial de Maria Moura, que é considerada sua obra mais bem acabada, e que a seu tempo, também terá resenha aqui!

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho
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Mais Livros! - JAN/2016


Olá! Esse é o primeiro Mais Livros! do ano e do blog.
Esse quadro que aparecerá uma vez por mês (assim pretendo, se Deus o permitir!) tem o objetivo de mostrar as novas aquisições do meu acervo. Como já disse em outro post, estou montando um acervo particular, voltado especialmente para a literatura clássica (e já tenho muita coisa!). Tenho uma relação enorme de livros por adquirir, que todos os meses vai diminuindo por uma ponta, e aumentando pela outra, porque vou me interessando por mais e mais livros; daí o nome do post rsrsrs. Mas a vida é assim mesmo. Só os leitores me entendem!
Mas vamos ao saldo deste mês, que a julgar pela foto, foi muito bom!

Adquiri dois clássicos daqueles bem retumbantes mesmo da literatura clássica universal, que há muito tempo vinha cobiçando. São dois romances: o francês O Vermelho e o Negro, do Stendhal; e o norte-americano Moby Dick, do Melville. São aquelas edições lindíssimas do antigo "Círculo do Livro".

Ainda na literatura estrangeira, adquiri Os Mistérios de Paris, do francês Eugène Sue. Embora muita gente tenha preconceito com o Sue, por ele ser um desses autores de folhetins populares, sua obra até hoje é editada (menos no Brasil, né?). Nunca o li, mas sabe aquele autor que algo te diz que você vai gostar?... Esta minha edição infelizmente é uma "adaptação". Foi tudo o que consegui. Quem souber onde possa localizá-lo na íntegra em português, por favor, me avise. Deixo aqui meu apelo às editoras brasileiras! Lancem esse livro completo no Brasil, gente!

Daí, há tempos venho me coçando pra ler o romance com aquele famoso personagem Rocambole (de onde provém o adjetivo rocambolesco), tão apreciado no século XIX. Na verdade, Ponson du Terrail escreveu uma série de romances com ele. Adquiri essa edição dos anos 70 da editora Record: As Aventuras de Rocambole, imaginando ser uma adaptação ou resumo de toda a saga. Consultei o título original da edição: Les Exploits de Rocambole, e descobri que esse é o título do 3º livro da saga. Contudo, embora a edição da Record apresente este título como o original, o conteúdo do volume é na verdade a tradução do 1º livro da saga: A Herança Misteriosa. Terão achado o título do 3º livro mais sugestivo, e em compensação a narrativa do 1º mais interessante? Estratégia de marketing ou simples equívoco? O bom disso tudo é que vou poder ler o 1º livro da saga. O resto... como fica? Descubro depois. rsrsrs

Comprei O Diário de Anne Frank, edição definitiva (Record, 2015). Tinha uma antigona que nunca li rsrsrs Agora que estou mais disposto a ler Anne Frank, preferi adquirir esta versão mais completa. A edição é bonitinha, mas reparei nuns probleminhas de impressão. Sabe quando o "a" e o "e" vêm pintadinhos de preto? Nada muito grave, mas um tanto desagradável. Fica a dica pra editora Record ter um cuidado mais especial na impressão de seus livros. Já devem ter percebido que não sou muito cliente de livrarias, porque me interesso mais por livros que só encontro em sebos. Mas depois disso, desinteressei-me ainda mais por essas edições modernas.

Adquiri ainda dois livros do escritor amazonense Milton Hatoum. São eles: o comentado romance Dois Irmãos e a coletânea de contos A Cidade Ilhada. Na verdade, só queria os Dois Irmãos, mas acreditem, sairia mais caro se eu o comprasse isoladamente. Preferi pegar essa "promoçãozinha". O ruim é que vieram sem orelhas. Será por causa da promoção? Não me avisaram essa parte. rsrsrs

Do português Camilo Castelo Branco, comprei o romance O Judeu, edição portuguesa em 2 volumes. Pretendo adquirir, pouco a pouco, todos os romances de Camilo. Por isso, preparem-se, que ainda o verão muitas vezes por aqui! Tantos foram os romances que ele escreveu...

Por fim, comprei Rachel de Queiroz, uma biografia da cearense por outra cearense: Socorro Acioli. Na verdade, só comprei essa biografia achando que ela trazia na íntegra o folhetim A História de um Nome, primeiro romance da Rachel, publicado em 1927 nas colunas do jornal O Ceará. O livro traz só algumas passagens. Quem souber onde consigo completo, por favor, não deixe de avisar também!

É... Foi um bom saldo pra janeiro! Dos autores que comprei, só li Camilo. O resto só conheço de nome. E você, já leu algum deles? Comenta aí... Por qual devo começar?

Daniel Coutinho
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Oscar e Amanda (The Children of the Abbey), de Regina Maria Roche - RESENHA #1



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1ª resenha!!! Então, vamos lá!
Alguém já ouviu falar nesse livro? Aposto que não. Não recrimino os leitores de hoje. Este livro é mais um dentre tantos outros esquecidos injustamente! Mas não pensem que passo a vida a desencavar livros antigos. Às vezes, até o faço rsrsrs Mas, na maioria das vezes, estes livros desconhecidos que leio vêm de alguma referência. No caso de Oscar e Amanda, foi lendo o autor que mais aprecio de toda a literatura brasileira: José de Alencar. Lendo sua autobiografia, Como e Porque Sou Romancista, descobri que Alencar se tornou um leitor voraz desde cedo. Ele conta que sua mãe lhe conferia a tarefa de ler em voz alta às mulheres da família os romances que possuíam, que eram na maioria romances ingleses em traduções portuguesas. Alencar conta que releu várias vezes esses livros, uma vez que o acesso à literatura era muito restrito. Os que mais lhe ficaram gravados foram Amanda e Oscar (Regina Maria Roche); Saint-Clair das Ilhas (Elizabeth Helme); e Celestina (Charlotte Turner Smith). Nem preciso dizer o quanto fiquei curioso pra ler esses livros. Pesquisei bastante, uma vez que Alencar não mencionava o nome das autoras.

O primeiro, só encontrava com o título invertido e ainda por cima em espanhol: Oscar y Amanda. Enfim, descobri que era o mesmo livro. O que ocorre é que Alencar leu de uma tradução portuguesa (de António Vicente de Carvalho e Sousa) que, por sua vez, provém de uma tradução francesa do original inglês The Children of the Abbey. Quanto ao Saint-Clair das Ilhas, obtive a que é provavelmente a mesma versão lida por Alencar, e que logo terá resenha aqui no blog. Celestina foi o único que não obtive em português, mas felizmente, a editora PedrAzul, que tem feito um excelente trabalho de recuperação de obras raras, tem pretensões de lançar este livro que aguardo ansiosamente.

Mas voltemos a falar de Oscar e Amanda. A minha edição é esta da primeira foto; ela é de 1943, da editora Vecchi, com "tradução" de Marina Sales Goulart de Andrade. A verdade é que se trata de uma adaptação. Ainda que a minha edição seja enorme (o livro é em formato grande e o texto, em letra pequena, é disposto em colunas), cotejei com o original, e vi que este último é um tanto maior. Mas não pensem que era intenção da editora dar ao público uma versão mais enxuta.
O que ocorre é que eles não traduziram do original inglês, mas sim de uma edição argentina. Cheguei a esta conclusão pelo número exato de capítulos em ambas e pelo epílogo que não consta assim especificado na edição original.

Oscar e Amanda, da escritora irlandesa Regina Maria Roche (1764-1845), foi publicado pela primeira vez em 1796. Disputava em popularidade lado a lado com Os Mistérios de Udolpho, da Ann Radcliffe. Vamos à história? (sem spoiler, é claro!).

O conde de Dunreath tem o grande desejo de ter um filho varão, mas sua esposa parece ter dificuldades para engravidar. Ela toma sob seus cuidados uma jovem órfã a quem dedica seu amor maternal, mas logo em seguida, fica grávida e tem uma filha a quem dá o nome de Malvina. A esposa de Dunreath morre no parto, deixando a criança órfã. Após sua morte, sua protegida decide abandonar a casa, mas ao ver-se triste e sozinho, o conde insiste em que ela volte; a jovem, aproveitando-se da fraqueza do conde, acaba conquistando-o e torna-se a nova Lady Dunreath. A nova esposa do conde também engravida e lhe dá outra filha: Augusta, que é tratada com bastante distinção, enquanto Malvina, a filha da falecida, é constantemente ignorada pela madrasta.

O tempo passa e aparece na vida dos Dunreath um jovem militar de nome Fitzalan. As filhas do conde caem logo enamoradas dele, mas é Malvina quem ganha seu coração. Prevendo a oposição de seu pai a um casamento com um homem sem fortuna, Malvina decide casar com Fitzalan às escondidas, para a alegria de sua madrasta, pois quando descobre-se a união, o conde decide deserdar Malvina. O casal Fitzalan concebe dois filhos: Oscar e Amanda. A sorte deles, contudo, não é favorável, e enfrentam grandes dificuldades. Decidem pedir o auxílio do conde, mas Lady Dunreath intercepta-os com imprecações. Malvina acaba morrendo, deixando Fitzalan sozinho com seus filhos.

Mesmo com dificuldades, Oscar e Amanda crescem bonitos e sãos. Oscar pretende seguir a carreira do pai e vai para a Irlanda ao regimento do coronel Belgrave. Este último vem a ser o grande vilão do romance. Depois de casar com Adélia, a mulher amada por Oscar; ele ainda persegue a bela Amanda, que o despreza, e para fugir dele, vai para a casa de sua ama de leite num interior da Inglaterra. Lá, conhece o gentil Lord Mortimer. Eles logo se apaixonam, mas a condição social de Amanda será o primeiro de uma série de empecilhos interpostos entre os dois.

Este foi, sem dúvidas, um dos melhores livros que li recentemente, ao ponto de me surpreender. Achava que seria uma historieta pacata, mas descobri neste conto de fadas para adultos rsrsrs uma história de fôlego impressionante. E acreditem... Tudo o que contei é só a ponta do iceberg. A autora é perita em manejar artifícios que prendem a atenção do leitor de forma tal que não te deixa largar o livro. Exatamente por isso, fiquei morrendo de vontade de ler a versão completa em espanhol (porque inglês... tá difícil! espanhol... ainda, ainda! rsrsrsrs). Talvez, o único defeito que me incomodou neste livro foi a fragilidade da protagonista. Ela é uma daquelas mocinhas que desmaia por qualquer coisa, e tudo a ofende rsrs Mas a verdade é que esse tipo de comportamento era o modelo imposto às mulheres até o final do século XIX. Também achei um pouco exagerado todos os padecimentos sofridos por Amanda. Dá uma peninha... Me fez recordar as telenovelas que até hoje se utilizam desse recurso. Em suma, esse livro é simplesmente maravilhoso, se você gosta de histórias românticas bem contadas, como eu. Recomendo demais! Difícil vai ser achar em português. Mas quem souber inglês ou espanhol, busque no Google Books. Vale muito a pena!

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho
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