quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano - RESENHA #52 (contém spoilers)



Minha primeira experiência com a obra de Alexandre Herculano não foi muito agradável, o que me deixou um tanto contrariado, apreciador que sou da literatura romântica. Eurico, o Presbítero (1844) é de uma composição que me pareceu bastante ultrapassada, ainda que fosse obra do século XVIII. Seria perfeitamente um desses romances de cavalaria que levaram o Cavaleiro da Triste Figura à insanidade. Mas penso ter saído ileso da experiência rs.

Romance histórico, como todos os demais romances de Herculano, Eurico registra a decadência do império gótico e sua invasão pelos árabes, no século VIII. Nesse contexto, o gardingo Eurico é rejeitado por Favila, duque de Cantábria, como pretendente à mão de Hermengarda, sua filha. Mesmo Eurico não sendo um pobre-diabo, sua posição social não é a ambicionada por Favila para sua bela filha. Mas o que deixa o jovem mais magoado em seu orgulho é a falta de resistência de sua amada, tão prontamente obediente a seu pai.

Ferido em seus sentimentos, Eurico dedica-se à vida religiosa, a fim de esquecer sua bela ingrata. Optando pela carreira monástica, torna-se o presbítero de Carteia, merecendo respeito e admiração por sua conduta espiritual. Uma atitude sua, porém, intriga os fieis: suas vigílias noturnas e solitárias pelas montanhas. Com os pensamentos inflamados pelo sentimento ainda vivo por Hermengarda, Eurico escreve, horas a fio, cânticos e elegias para ela. Após descobrirem suas razões poéticas, as pessoas passam a considerá-lo um inspirado por Deus. Os cânticos de Eurico passam a integrar o repertório das catedrais de toda a Península Ibérica.

Devo pois assinalar que as passagens mais agradáveis do Eurico, para mim, são as dos registros de seus manuscritos, ainda que eles também sejam objeto de análise da corrupção do povo godo. Neles também consta a visão de Eurico que, em sonhos, previu que sua pátria pereceria ao ataque dos povos da África. Impressionado com a visão, o presbítero participa o iminente perigo, por cartas, a seu nobre e velho companheiro de armas, Teodomiro, o duque de Córduba, prevenindo-lhe ainda da traição de Juliano, o conde de Septum, e Opas, o bispo de Híspalis. O caso é que muitos godos, inconformados com a situação política da península, decidem aliar-se aos muçulmanos.

Essa guerra aparentemente desigual entre godos e árabes é o objeto principal do romance, ocupando considerável parte da obra. Em meio à desesperança de muitos cristãos, contudo, surge uma esperança luminosa na forma de um cavaleiro negro de identidade ignorada. Guerreiro exímio, o desconhecido cavaleiro tem preferência pelos inimigos mais poderosos, a quem extermina com uma fúria sobrenatural.

Nessas circunstâncias, morre Favila, deixando seu título de duque de Cantábria para seu corajoso filho Pelágio, irmão de Hermengarda. Esta é mandada para o Mosteiro da Virgem Dolorosa, onde deveria ficar protegida, em virtude das ocupações militares de seu irmão; mas o lugar é assaltado pelos árabes que têm intenções bastante lascivas para com as monjas. Para escapar deles, as religiosas decidem submeter-se ao “martírio”; em outras palavras, uma sessão de suicídio coletivo. Antes, porém, que Hermengarda fosse sacrificada, é resgatada por Abdulaziz, um amir do árabes, que pretende torná-la sua esposa.

Em Covadonga, caverna onde estão refugiados Pelágio e outros guerreiros godos, chega a notícia do sequestro de Hermengarda. Preocupado com o que possa acontecer a sua irmã, Pelágio reúne seus homens para partirem em busca dela. Sua atitude é barrada por Eurico, que se revela como o cavaleiro negro, apresentando como prova uma carta de Teodomiro que, àquela altura, já era aliado dos árabes. Eurico não quer pôr em risco o que resta de um exército precário; por isso, assume a empresa do resgate de Hermengarda, não revelando seu interesse particular na causa, admitindo como companheiros apenas guerreiros sem família.

O resgate é efetuado com sucesso. A salvo em Covadonga, Hermengarda, ainda bastante impressionada com os últimos sucessos, pensa alto sobre um terrível remorso que carrega consigo: sua ingratidão para com Eurico, a quem julga morto. A donzela admite tê-lo rejeitado por obediência ao pai. E bem perto dela, sem que saiba, quem está? O próprio Eurico, que agora não pode amar Hermengarda em razão de seus votos sacerdotais que incluem o celibato. Contrariado mais uma vez em seu amor, Eurico decide concluir seus dias, fiel a três ideais: sua pátria, sua fé e seu amor. O presbítero prepara uma armadilha para os grandes traidores do seu povo: Juliano, o conde de Septum, e Opas, o bispo de Híspales: as duas últimas vítimas de seu franquisque. Finalmente, entrega-se sem resistência à cólera de Muguite, amir da cavalaria árabe, que parte-lhe o crânio com uma espada. No dia seguinte, Pelágio desperta com o canto de sua irmã, que entoava um dos cânticos compostos pelo inspirado presbítero de Carteia; após cantar, ela emite um riso insano, pois estava mesmo enlouquecida.

Esse final tremendamente épico confirma a posição do autor quanto ao celibato clerical, manifestada já no prólogo do livro. Herculano fundamenta sua tese com bastante propriedade ao criar um desenlace tão trágico para seus personagens. Nesse quesito, não poderia contestar seu êxito. O que contesto são suas propriedades romanescas e seu poder de fabulação, bastante limitados por seu tino histórico. De fato, o historiador prejudicou bastante o romancista. Pelo menos em Eurico foi assim: a ficção estava sempre em segundo plano, à margem da explicação histórica, de maneira que o leitor não consegue ter um retrato mais sólido de personagens fundamentais como a própria Hermengarda, cuja participação na narrativa é bastante ínfima. Os episódios são enfim narrados muito objetivamente, constantemente esclarecidos pelo autor com descrições minuciosíssimas e notas de rodapé.

A leitura do Eurico foi, portanto, arrastada e aborrecida. É o tipo de livro que vale mais pelo conhecimento da tendência medievalista na escola romântica. Sua composição já era ultrapassada mesmo para sua época, o que renderia a Herculano, anos depois, críticas ferinas da parte de autores como Eça de Queirós. No mesmo ano em que Eurico apareceu em Portugal, Macedo publicava A Moreninha no Brasil, o que demonstra que o Romantismo no Brasil estava bem mais interessante àquela época. Ainda que sejam obras com propostas completamente diferentes, devemos lembrar ainda que, em pouco tempo, teríamos o nosso Alencar com seus romances históricos. O Guarani e As Minas de Prata dão o grande exemplo de que é possível trabalhar um contexto histórico sem ofuscar o brilho e a graça de um romance legítimo, uma obra de arte.

Vale lembrar que Eurico, o Presbítero é o primeiro livro de um projeto literário a que seu autor deu o nome de O Monasticon, constituído, além da obra já citada, pelo romance O Monge de Cister, minha próxima leitura do Herculano. Mas isso não deve ser breve rs!

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto - RESENHA #51



Em mais uma de minhas experiências com a obra de Lima Barreto fui infeliz. Desta vez, li a tão bem acabada Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), na qual pretendia encontrar algo de novo, mas não deu muito certo rs. Seguramente posso afirmar que nunca o autor me pareceu tão enfadonho e repetitivo quanto neste romance, se é que podemos classificá-lo como tal.

Gonzaga de Sá é mais desabafo que romance. Já devo ter dito algo semelhante sobre Policarpo Quaresma, Isaías Caminha e Clara dos Anjos, mas o objeto desta resenha supera todos estes com louvor. Deve ser por isso que não gosto de Lima Barreto! Tudo quanto tenho lido dele trata mais de sua própria pessoa do que de todo o resto. Não consigo entender o interesse que tem despertado até hoje e a animosidade com que muitos falam de seus livros. Será porque está na moda prestar atenção nas classes mais oprimidas da sociedade? Vamos então agora supervalorizar todos os livros sobre negros, deficientes, gays, pobres...? Não estou dizendo que não se deve dar atenção aos grupos menos favorecidos. É importante, sim, lutar contra as desigualdades. Só não entendamos esta luta como qualificativo literário. Não vou dar ouvidos a quem quer que diga que Lima Barreto é excelente “literato” por denunciar o preconceito.

Passando ao livro, logo no título, temos um cacófato provocado pelas iniciais “M. J.”, sugerindo “mijota” ou “mijote”, adjetivo pejorativo. Mais uma vez, portanto, nosso protagonista (tal como Clara, Isaías e Policarpo) não terá importante figura social. O autor esclarece em “Advertência” que está sendo apenas intermediário da publicação, cuja autoria é de um amigo seu, Augusto Machado, o biógrafo. A estratégia é inútil quando o leitor sem grande esforço reconhece o figurão por trás da máscara.

Pois bem. Qual que é a ação do “romance”, vocês devem querer saber; e eu prontamente lhes direi que não há ação. O que temos basicamente são dois títeres: Augusto Machado e Gonzaga de Sá. Lima Barreto é o ventríloquo que lhes dá voz. O livro é quase todo um monólogo diálogo entre esses dois funcionários públicos. Quem são eles?

Augusto Machado é um jovem mulato que deseja ascender no serviço público, aspirando chegar a diretor de repartição.  Quando o bispo de Tocantins é recebido no porto de Belém com apenas dezessete tiros de salva, fica melindrado, julgando-se merecedor de dezoito. O caso é levado aos foros, chegando até Machado, que é logo incumbido de consultar a “Secretaria dos Cultos”, onde trabalha o velho amanuense Gonzaga de Sá.

Nosso “biografado”, bacharel em letras, é um filósofo pessimista e descrente na humanidade. Com mais de sessenta anos, não é mais que simples escrivão, posição assumida por vontade própria, tendo em vista sua ascendência ilustre (Gonzaga descendia de Estácio de Sá). “Filho de um general titular do Império, podia ser ‘muita coisa’; não quis. Era preciso ser doutor, formar-se, exames, pistolões, hipocrisias, solenidades... Um aborrecimento, enfim...” (p. 26). A Gonzaga aborreciam a “mania de aristocracia” dos brasileiros, os falsos intelectuais, os políticos corruptos, os empregados de ideias medíocres, além do mau gosto na arte dos emblemas públicos. É, no mais, um homem sem preconceitos: “Eu sou Sá, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafuzos e seus 'galegos' também...” (p. 34).

Antes de passar à vida de seu mentor, Augusto Machado adianta as circunstâncias de sua morte. “Para se compreender bem um homem não se procure saber como oficialmente viveu. É saber como ele morreu; como ele teve o doce prazer de abraçar a Morte e como Ela o abraçou.” (p. 20). Fora no jardim da casa de Gonzaga. Abaixando-se o velho para colher uma flor que pretendia oferecer a seu fiel companheiro, caíra e morrera. Simples assim, como tudo em sua vida. Vale lembrar que, pouco antes, no Passeio Público, ele havia declarado amar a morte, o que revela sua antipatia pelo contexto no qual estava inserido. Dentre os objetos de seu espólio, o manuscrito de um conto sobre um homem que dedicara toda a vida na construção de uma aeronave, sem nunca consegui-la fazer voar.

A narrativa segue fragmentada, em episódios que sempre convergem para a mesma difusão de ideias entre os dois bonecos personagens. Um dos que merecem destaque é o velório do compadre de Gonzaga, Romualdo, homem branco que era casado com uma mulher negra. É mesmo interessante a observação de Machado sobre Aleixo, o pequeno órfão mestiço. Por mais que seu padrinho Gonzaga se esforçasse para torná-lo alguém, o preconceito jamais permitiria. “Coitado! Nem o estudo lhe valeria, nem os livros, nem o valor, porque, quando o olhassem diriam lá para os infalíveis: aquilo lá pode saber nada!” (p. 74).

Finalmente, não encontrei nada de novo neste livro, além da já citada ausência de ação. Se o tivesse lido antes dos outros, a impressão atual seria destes, de maneira que toda a obra “romanesca” de Lima Barreto parece ser uma coisa só: birras pessoais desafogadas em letra redonda.

Avaliação:

Daniel Coutinho

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terça-feira, 20 de junho de 2017

Como Gota de Óleo na Superfície da Água, de Léo Mackellene - RESENHA #50



Acabei de ler Como Gota de Óleo na Superfície da Água, romance de estreia do cearense Léo Mackellene, lançado recentemente pelo selo “Radiadora”. A experiência não foi das mais felizes e tentarei explicar por quê. Pra quem não conhece, o romance, provavelmente influenciado pelas ideias de Zygmunt Bauman, autor de Amor Líquido (2003), trata da fragilidade ou liquidez dos relacionamentos atuais, especialmente através do triângulo Júlio-Leila-Madalena; a narrativa é contada pelo ponto de vista de quatro narradores.

A começar pelos problemas mais evidentes, o estabelecimento do texto está bem sofrido. Erros de revisão são sempre chatos. É bem difícil escapar deles, eu sei, mas aqui senti um pouco de desleixo nesse quesito: discrepâncias entre nova e velha ortografia, pontuação, concordância, uso dos porquês; termos estrangeiros, etc. Uma atenção mais cuidadosa na hora da revisão poderia ter evitado boa parte das incorreções. O principal problema dos erros de revisão é que, geralmente, eles acabam interferindo no julgamento estético da obra, como se eles desvalorizassem o valor artístico da mesma. É o que acontece comigo, pelo menos! rs

Quanto aos narradores, como já mencionei, são quatro: Júlio, Leila, Madalena e um narrador em 3ª pessoa. Eles aparecem aleatoriamente ao longo do livro de maneira bem proporcional, exceto por Madalena, que narra menos. Senti falta de uma identidade mais consistente na construção desses narradores, o que me dificultava o reconhecimento deles durante a leitura. Mas depois o próprio Léo me alertou para a seguinte ideia proposta pelo livro: “Como se alguns espíritos fossem tão grandes, mas tão grandes que precisassem nascer cinco ou sete pessoas pra esses espíritos terminarem de reencarnar por completo.” (pág. 22) Em outras palavras, Júlio, Leila e Madalena, além do narrador em 3ª pessoa, compartilham da mesma alma, como se fossem um só. Talvez o espiritismo explique melhor essa parte rs. Mas indesculpável mesmo é a troca de narradores num mesmo trecho; de um parágrafo a outro, por exemplo; o que acontece no mínimo três vezes, certamente por lapso.

A escrita também é carregada de recursos que, a meu ver, comprometeram a fluidez do texto. Talvez a repetição de palavras tenha sido, desses recursos, o que mais me incomodou. Às vezes, parecia que estava lendo um trava-língua: “Desde então, o aniversário de Clarinha seria comemorado no dia em que ela se mudara pra casa da Maria Luiza, e não o dia mesmo em que tinha nascido, mesmo dia em que a mãe adotiva morrera.” (pág. 89); ou “Longe de ser outro. Antes de existir, contudo. Antes de antes de nascer o mundo. Longe, muito longe... longe de ser novo. Longe de ser outro.” (pág. 132) ou pior ainda “[...] foi o que lhe disse o pai e o pai dele disse a ele e o pai do pai dele disse ao pai dele.” (pág. 325).

O livro é ainda saturado de referências (músicas, filmes, livros, artistas, etc) que aparecem o tempo todo. Sempre entendi que uma referência funciona como um recurso para produzir efeito; mas quando tal recurso é empregado imoderadamente, o efeito acaba se perdendo, tornando-se repetitivo e insípido. Apontar todas as referências que aparecem em CGOSA daria outro livro. A linguagem escrachada utilizada em vários episódios também não me pareceu de bom tom, devido à sua considerável recorrência. O verbo “trepar” teve, por exemplo, uma participação muito efetiva na obra rs. Isso para não citar tantos outros termos vulgares que me pareceram exagerados e sem grandes propósitos.

Há ainda passagens em que o texto toma uma roupagem que mistura filosofia e autoajuda, como a querer, a todo custo, persuadir o leitor psicologicamente: “Algumas coisas são inevitáveis. A vida é inevitável, e o que tem de acontecer tem muita força.” (pág. 125), ou “Os momentos que podemos lembrar são momentos em que pudemos alcançar a superfície do Ser e respirar. O que esquecemos é mera instância, momento em que não Fomos, nem Éramos... Estávamos... e estamos todos só de passagem.” (pág. 310) e só mais esta “Viemos cá neste mundo para desatar nós e refazer laços. Somos sempre uma ponte, uma ponte para o outro, para algo ou pra algum lugar. Sempre.” (pág. 312). Augusto Cury que se cuide! rs

A dispersão da narrativa em retalhos, o que já é quase uma regra no romance contemporâneo desde que Milton Hatoum publicou Relato de um Certo Oriente (1989), foi outro recurso descomedido. São inúmeras as histórias paralelas que acabam tendo mais espaço que o núcleo central na primeira metade do livro. Casos de parentes, amigos, conhecidos, vizinhos, empregadas domésticas rs: personagens secundários e terciários que não tiveram grande relevância para os propósitos do livro; quando muito, tornaram-no mais extenso. Mas que, devo admitir: essas subtramas roubaram a cena por diversas vezes, pelo colorido e pelo interesse, em relação ao núcleo principal.

Finalmente, passando ao núcleo central, o triângulo Júlio-Leila-Madalena não me pareceu convincente pelo comportamento improvável dos personagens. É sempre muito obscura a maneira como os relacionamentos na trama atam e desatam, principalmente pela facilidade com que isso ocorre. Os personagens de Léo parecem amar à primeira vista; desamar ao primeiro deslize; e voltar atrás ao primeiro arrependimento. São inúmeras as situações inconcebíveis, especialmente pelo perfil que vamos traçando mentalmente de cada tipo. O desenvolvimento e o desfecho desse núcleo central são questionáveis, para não dizer inverossímeis.

Agora, para não descuidarmos de apontar as qualidades do livro, não poderia deixar de falar da ambientação que me pareceu bastante condizente com a realidade cearense, urbana e rural; e não estou falando exclusivamente da realidade atual, mas de toda uma geração. Quem cresceu nos anos 80-90, por exemplo, sorrirá não poucas vezes diante de costumes e modismos daquele tempo. Vez por outra, vislumbrava certa quedinha do autor pela prosa regionalista. O capítulo que narra o casamento de dona Menina e Sebastião chega a lembrar Rachel de Queiroz. Pracabá, Promessa e Medida do Bonfim eram para mim Fortaleza, Sobral e Massapê rs. Foi o que vi de grandioso em CGOSA: a ambientação e o registro de costumes, dando aquela saudadezinha de um tempo em que podíamos pular e gritar na chuva, de bica em bica, sem nos preocuparmos com nada.

Entendo perfeitamente que um romance de estreia é sempre mais vulnerável. Contudo, o que percebi em CGOSA foi que a experiência do “escritor” sobrepujou a do “prosador”. Foi deste último que senti falta e, de fato, é ele quem precisa ser trabalhado mais. Desejo muita sorte ao Léo na formação desse prosador que já está desabrochando nele.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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