sábado, 17 de fevereiro de 2018

O Ermitão do Muquém, de Bernardo Guimarães - RESENHA #59



Quando penso em romance indianista, só lembro de Alencar, pois até então não tinha lido outros que não os do cantor de Iracema. Não sabia que o romance de estreia de Bernardo Guimarães tratava-se de obra indianista. O que sabia d’O Ermitão do Muquém era seu pioneirismo na história do romance regionalista nacional. O caso é que, dividido entre essas duas tendências, o romance está simplesmente formidável. Há muito que não lia um novo romance do autor, que é um dos meus românticos favoritos, especialmente pela sedução que tem a sua escrita.

Editado ora como “O Ermitão de Muquém”, ora como “O Ermitão do Muquém”, o título mais correto vem a ser este último, por ser o que consta na 1ª edição, como nas posteriores impressas em vida do autor. O subtítulo acusa: História da fundação da Romaria de Muquém na província de Goiás. Festejada até os dias de hoje pelos fieis devotos, a romaria de Muquém tem sua origem romanceada por Bernardo Guimarães que, na introdução de seu romance, alega ter ouvido toda a narrativa da boca de um romeiro, enquanto fazia pouso num rancho mineiro. Contudo, embora não possa afirmar, acredito que toda a fabulação d’O Ermitão do Muquém é fruto da imaginação de seu autor, uma vez que não encontrei referências à narrativa em outras fontes.

O romance é dividido em quatro “pousos”, que correspondem àqueles realizados pela comitiva do autor, durante a narração do romeiro. Vamos pois à história!

Gonçalo é um típico valentão de Vila Boa (atual Goiás) que desafia a quantos queiram medir forças com ele. Ainda que inspirado pelos bons sentimentos recebidos dos falecidos pais, a índole de Gonçalo instiga-o à vida rude e desregrada. Num dia em que via-se louco por uma briga, decide provocar seu amigo Reinaldo, insinuando-se para Maroca, a namorada do rapaz. A situação dá lugar a um sangrento combate, onde Reinaldo acaba morto e Maroca enlouquece de tão impressionada.

Fugitivo das autoridades, Gonçalo buscará refúgio entre os selvagens, passando por várias peripécias até chegar finalmente à tribo dos Xavantes, onde conhecerá a bela Guaraciaba, por quem logo se apaixona. A virgem, filha do velho cacique Oriçanga, já está, no entanto, prometida desde o berço ao intrépido guerreiro Inimá. Como os sentimentos de Itajiba (Gonçalo é chamado assim pelos Xavantes) são bem recebidos por Guaraciaba, e ele também acaba ganhando a simpatia de Andiara, principal pajé da tribo, decide-se realizar uma grandiosa prova entre os rivais, para a escolha do companheiro da filha de Oriçanga.

O poder de ambientação de Bernardo Guimarães é algo surpreendente, de maneira que sentimo-nos dentro da história o tempo todo. De fato, as cenas são pintadas com cores tão vivas e cintilantes que, atreladas à escrita fluida e feiticeira do autor, fazem a leitura voar. O estilo é, tal como em outras obras já lidas desse grande mineiro, deliciosíssimo. Verdade é que a pintura indianista não é da mesma precisão de um Alencar, mas o senão acaba sendo justificado pelos intermédios que tem a história que, como disse, é relatada por um romeiro que, por sua vez, a ouviu de terceiros.

Indiscutível é que a empolgação despertada pela leitura não me dava oportunidade de prestar atenção em mais nada que não fosse a trama. Mas, claro, não pude deixar de apreciar a beleza da frase de Bernardo Guimarães, que vale por um aconchegante cafuné.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Lendas e Tradições Populares do Norte, de Franklin Távora - RESENHA #58




Lendas e Tradições Populares do Norte foi uma série de textos escritos por Franklin Távora para a Illustração Brasileira, publicados entre janeiro e junho de 1877. Nunca publicadas em livro, tive que ler as Lendas pelos periódicos originais, digitalizados pela Biblioteca Nacional.

Apesar de não ser simpatizante do gênero “fantasia”, tenho um interesse particular por lendas, certamente porque elas estão diretamente inseridas na realidade. Ainda que as histórias sejam produto da imaginação do povo, elas têm um encanto mais característico pelo fato de que não lhes faltam defensores a garantir-lhes a veracidade. É nessa ponte entre o real e o sobrenatural que está o meu interesse pelas lendas.

A proposta da coluna de Franklin Távora era registrar essas histórias populares, para que não se perdessem na tradição oral. O autor demonstra preferência pelos causos associados a episódios históricos, o que o leva a preceder as narrativas fantásticas com uma explicação – às vezes demorada – referente ao contexto político da época. O episódio mais recorrente da série são as invasões holandesas no século XVII.

As qualidades literárias do autor d’O Cabeleira são perfeitamente reconhecíveis nessas Lendas, ainda que não fosse necessariamente a intenção de Távora escrever literatura propriamente dita. Pressentimos que a sugestão era um trabalho de não ficção que registrasse as tradições populares do Norte, mas a escrita é por vezes tão requintada, que as intenções artísticas acabam se revelando vigorosamente. A linguagem, em certos trechos, chega a ser tão rebuscada para um trabalho de não ficção, que logo denuncia a preocupação estética sobre o texto.

Apreciei todas as oito lendas da série e confesso que só conhecia a das “mangas de jasmim de Itamaracá”, também recolhida por Câmara Cascudo em Lendas Brasileiras. Comentarei rapidamente cada uma delas, a título de curiosidade mesmo, tendo em vista ser o conjunto da obra tão desconhecido dos leitores.

Rio Manguaba, onde foi submerso o sino encantado.
“O sino encantado” concentra-se já nas invasões holandesas. Preparando-se para um iminente ataque, os cristãos da vila de Porto Calvo, em Pernambuco, decidem recolher todos os objetos sagrados das igrejas, para que não fossem profanados pelos pagãos. O maior desses objetos, o sino da torre, é escondido no fundo do rio Manguaba. Passados os conflitos com os holandeses, o sino submerso acaba ficando esquecido após a doação de um novo sino por uma fiel. Quando finalmente o vigário da vila decide reavê-lo, surge uma questão: o vigário pretende destinar o sino a outra igreja, enquanto o juiz é da opinião de que à igreja matriz deve ser restituído seu antigo sino. Durante a discussão, a corda utilizada para rebocar o sino acaba se rompendo; o objeto acaba perdido nas profundezas. Desde então, muitas pessoas alegam ouvir o sino tocar de dentro do rio, ao meio-dia e à meia-noite.

Pedra Aguda, do município de Aracoiaba, CE.
“A visão da Serra Aguda” trata da visão de uma mulher que aparece numa caverna da hoje chamada Pedra Aguda, monólito do sertão de Aracoiaba, no Ceará. No relato de Távora, uns sertanejos, que por ali pernoitavam, encontraram um faqueiro de pedra numa das entradas naturais; em seguida, foram surpreendidos por uma estranha mulher que, após cumprimentá-los, vai acudir a um choro de criança que se faz ouvir.

Nos mangues do rio Beberibe foi escondido o tesouro do soldado.
“O tesouro do rio” nos conta sobre um grande saqueamento realizado por soldados de Recife que estavam inconformados com suas condições de trabalho. Contudo, após assaltarem ricos negociantes, são obrigados a se esconder do povo, que tomara a defesa das vítimas. Um canoeiro de Olinda acaba sonhando três noites seguidas com o tesouro escondido por um dos soldados que pereceu nas mãos da fúria popular. Discretamente, ele vai em busca do tesouro nas margens do Beberibe, mas é surpreendido por uma grande ventania. Uma voz em sua consciência convence-lhe a abandonar a empresa e regressar ao trabalho honesto.

Cruz do Patrão, em Recife, PE.
“A cruz-do-patrão” é, a meu ver, o episódio mais interessante da coleção. A verdade é que são muitas as histórias em torno desse monumento que até hoje existe em Recife. No século XVIII, a Cruz do Patrão era um indicador para os navios no antigo istmo entre Recife e Olinda. Acreditava-se que a cruz de pedra era amaldiçoada, em consequência das desgraças já ocorridas no local, como o caso do soldado que acabou morrendo no degredo para o qual foi condenado após ter sido acusado injustamente da morte de um estudante cujo corpo foi encontrado ao lado do sinistro monumento. Outro caso bastante famoso foi o de uma mulher negra que, após ter se juntado a um grupo de feiticeiros que faziam seus cultos no temido local, foi perseguida por um espírito maligno que tinha a forma de um animal desconhecido. Após entrar em contato com as águas do Beberibe, onde a negra havia se refugiado, uma súbita explosão destruíra a criatura. No dia seguinte, no local onde a negra sumira, aparecera uma ilha preta, à qual todos passaram a chamar de “Coroa-preta” e que podia ser vista até meados do século XIX.

Praça Chora Menino, em Recife, PE.
“Chora-menino” é outro episódio da invasão holandesa. Depois de invadido o Forte Real do Bom Jesus, os habitantes que escaparam ao ataque intentaram uma peregrinação até Vila Formosa (atual Sirinhaém), onde estava o grande general Matias de Albuquerque. Durante a jornada, Ana de Souza acaba morrendo de fome, deixando seu filho aos cuidados de Lourença, sua irmã mais jovem, que também tinha um filho. Por conta do tempo gasto com a falecida, Lourença acaba ficando para trás, perdendo de vista a caravana. Sozinha e desesperada pelo choro das duas crianças famintas, Lourença acaba morrendo também. Reza a lenda que quem passasse pelo local, ouvia choro de criança; daí o nome de “Chora Menino” que recebeu o lugar. Até hoje, em Recife, existe uma praça com este nome.

 Túmulo abandonado do Padre Tenório na Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Itamaracá, PE.
“As mãos do padre Pedro Tenório” conta da execução de um padre que conspirava pela independência do país, cuja cabeça fora colocada no alto de um poste, e as mãos atadas a outra coluna. Conta-se que duas crianças brincavam distraidamente perto da coluna onde estavam as mãos do padre, quando viram uma luz sobre elas. Acreditou-se logo que a luz era a alma do padre, pois mesmo com chuva, podia-se vê-la plácida, viva e imóvel.

A lenda do "frade sem cabeça" também é citada pelo autor.
“O cajueiro do frade” é a mais engraçada das lendas, ainda que não fosse intenção do autor deixar o texto cômico. Frei José era tão querido no lugar onde habitava, que quando transferido, as pessoas acreditavam vê-lo à sombra do cajueiro que ficava ao lado de sua antiga palhoça. Quando souberam da morte do frade, intensificou-se a ideia de que a imagem do religioso podia ser vista ao lado do cajueiro, o que espantou todos os moradores do lugar.

Manga Itamaracá
“As mangas de jasmim”, finalmente, encerra a série com uma lenda que, como disse, já conhecia pela leitura de obra já resenhada por aqui. Caso não saibam do que se trata, advirto que é uma das histórias mais românticas da cultura pernambucana. Por ser uma lenda bastante difundida na época, o autor preferiu divulgar os versos de José Soares de Azevedo, intitulados Ayres Ivo Redivivo, onde a lenda é contada de forma bastante singela e agradável. Na antologia de Câmara Cascudo, estes mesmos versos estão parcialmente transcritos; na obra de Franklin Távora, temos o poema na íntegra.

Eis uma obra importantíssima, especialmente para os pernambucanos, que está perdida entre papéis velhos da imprensa brasileira. Seria uma ideia por demais excelente a publicação dessas lendas em livro, o que, a meu ver, já deveria ter acontecido há muito tempo.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A Intrusa, de Júlia Lopes de Almeida - RESENHA #57



Ainda estou mui impressionado pela leitura d’A Intrusa (1905), de Júlia Lopes de Almeida. Sabe quando você tem a impressão de que tal livro foi feito especialmente para agradá-lo? Pois foi esta minha impressão. D. Júlia já me havia dado mostras de seu talento com o estranho Cruel Amor, lido ano passado; mas esta nova experiência foi ainda mais grandiosa pelo efeito da recepção. Lia as páginas d’A Intrusa com tanto interesse, que desejava que o livro não terminasse; ainda que não conseguisse poupá-lo. Certamente que o argumento do romance, por ser tão instigante, renderia uma obra mais extensa. Sentia-me um coautor enquanto formulava mentalmente outros episódios que adoraria ver no livro.

Simpatizei demasiado o enredo. Argemiro, viúvo há nove anos, vê com tristeza a desordem em que se acha seu lar; lamenta também a ausência da filha, Maria da Glória, de onze anos, que vive na chácara dos avós maternos, onde é muito malcriada. Mesmo sendo ainda jovem, repudia um segundo casamento, tão viva que está a imagem da falecida em seus pensamentos; sem contar que a mulher, agonizando, fizera-lhe prometer fidelidade mesmo após a morte. Nestas circunstâncias, não querendo casar-se novamente e ao mesmo tempo necessitado de uma intervenção feminina em sua casa, põe um anúncio no jornal, solicitando uma governanta.

Alice Galba, uma jovem solteira de vinte e cinco anos, logo se apresenta na residência do viúvo, e por ele é admitida, com a especial condição de que não se vejam. Mesmo na entrevista de contratação, Argemiro não pôde ver o rosto de sua governanta, que estava coberto por um véu. Logo nos primeiros dias de trabalho, Alice assume o controle da casa e dos criados, inclusive Feliciano, que era quem dispunha de tudo anteriormente. Este era criado de confiança por ser filho da ama de leite da falecida senhora, mas não tinha o menor desvelo nos trabalhos domésticos, abusando dos gastos e da confiança de seu patrão.

Uma súbita mudança se faz notar na casa de Argemiro que, imediatamente, percebe o decoro da governanta no trato das mais simples tarefas. Os móveis lustrosos, as roupas bem dobradas nas gavetas, objetos antigos restaurados, o jardim bem cultivado, todos os cômodos na mais perfeita ordem. Tudo enfim torna-se agradável aos olhos de Argemiro, que mesmo nunca vendo Alice, pressente-a em todos os detalhes. Sente-se mesmo satisfeito por não vê-la, evitando todo e qualquer constrangimento; não a reconhece como mulher, mas como uma alma eficiente e silenciosa.

Mas agora entendamos por que tão prendada mulher é uma “intrusa”.

Com uma governanta em casa, Feliciano perde os plenos poderes que egoisticamente usufruía. Além de não ter mais o comando dos outros criados, ele já não pode fumar os odorosos havanas do senhor, nem dispor de suas camisas e gravatas, e, principalmente, já não pode despender com excessos o dinheiro que lhe era confiado. Destruíram seu reinado e, para ele, é inadmissível que uma mulher branca o tenha feito. Revoltado com sua própria raça, Feliciano tem mania de superioridade por ter sido educado na mesma cartilha de sua finada senhora.

Luiza, a baronesa do Cerro Alegre e sogra de Argemiro, também aborrece Alice, pois receia que a moça possa tomar o lugar de sua filha. A finada é cultuada de tal forma como se nunca houvera morrido. A baronesa teme que seu genro falte com a promessa exigida pela morta, como também lamenta que sua neta, Maria da Glória, esteja cada vez mais amiga da “outra”, que tem alcançado grandes progressos na educação da menina. Alice, segundo ela, não passa de uma calculista mal-intencionada que, fazendo-se de boazinha, deseja ser a nova senhora da família.

Petronilha, esposa do ministro Pedrosa, não acredita que haja candidato mais conveniente para casar-se com sua filha do que Argemiro, que é advogado muito bem-sucedido. A senhora pedrosa arrasta a filha para o lado do viúvo em todas as ocasiões possíveis, ainda que a jovem não demonstre sinceras inclinações amorosas por ele. Alice Galba representa, portanto, uma perigosa ameaça que poderá tornar tudo ainda mais difícil para seus planos.

Finalmente, ainda que com muita sutileza, padre Assunção, o melhor amigo de Argemiro, demonstra receios em relação a Alice. Ainda que para ele a jovem governanta não seja exatamente uma intrusa, é sempre com cuidado que observa o quanto seu amigo é dominado por sua delicada influência. Ao leitor, podem parecer estranhos os zelos do padre que, mais do que ninguém, é consciente da nobreza da governanta. Mas há uma razão especial para essa reserva, que só será revelada a seu tempo.

O objeto da cisma de todos esses personagens é quem menos aparece no livro. O que sabemos de Alice é sempre nos transmitido por intermédios. A autora meio que evita nossa simpática intrusa, como a querer que o leitor formule sua personalidade a partir das impressões dos outros, o que me pareceu uma interessante sutileza da narrativa. Contudo, mesmo privados de um acesso mais direto à misteriosa personagem, pressentimo-la o tempo todo, tal como Argemiro que, mesmo sem a ver, percebe-lhe constantemente, seja no aroma que agora há em sua casa, seja num livro aberto, abandonado às pressas numa janela.

A Intrusa é de uma animosidade que alude aos melhores romances do século XIX. Há uma vivacidade nos episódios, pintados sempre com muita graça, como decididos a agradar o leitor a todo custo. O ritmo é sempre formidável pela leveza e brilhantismo das cenas. Não é livro que propõe densas reflexões ou que vá mudar a sua vida; é obra para encanto e deleite de todo leitor que esteja sôfrego por acompanhar uma história curiosa e enternecedora.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa - RESENHA #56



Muito já se discutiu sobre a primazia do romance brasileiro, o que não deixa de causar certa admiração, principalmente depois que se lê o esclarecedor artigo de Aurélio Buarque de Holanda para O Cruzeiro, de 1952, mais tarde reutilizado (com algumas alterações) como prefácio em edição de O Filho do Pescador (Melhoramentos, 1977). De tudo o que li sobre a referida questão, o texto do Aurélio me pareceu o de observações mais acertadas. Não vou remoer o assunto aqui, pois não é o motivo do post. Limito-me a dizer que, como José Veríssimo, reconheço o romance de Teixeira e Sousa como o primeiro de nossas letras.

Todos que se deram ao trabalho de ler e analisar O Filho do Pescador (1843) são unânimes sobre a precariedade do livro. Desse modo, ainda que involuntariamente, a crítica lançou sobre a obra tal anátema, que há pelo menos vinte anos a mesma não é reeditada. A última edição de que tenho notícia é a preparada por Domício Proença Filho para a editora Artium em 1997; edição por que li.

Muito me admira essa aversão à obra de Teixeira e Sousa, mesmo da parte de estudiosos da Literatura. Não me proponho aqui a desmentir os muitos defeitos apontados pela crítica; antes, quero fazê-los pensar nosso primeiro romance como o que é: o primeiro. Quando paramos para analisar as primeiras obras de nossos autores preferidos, deparamo-nos com problemas que, de modo geral, não aparecem em trabalhos posteriores, sem contarmos que não poucos escritores acabam excluindo publicações imaturas de suas bibliografias. O começo não é fácil pra ninguém rs. Agora, pensemos no que consistia a prosa de ficção do Brasil antes de 1843. Quando muito, tínhamos o Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, que de caráter notadamente religioso, era mais um livro didático de escola dominical rs. Há quem lembre os contos ou novelas da primeira metade do século XIX; mas certamente que as narrativas de Lucas José de Alvarenga e Pereira da Silva (imitadas de argumentos europeus) ou mesmo as novelas mais ou menos originais de Joaquim Norberto não tinham o porte do romance de Teixeira e Sousa.

Foi, pois, o autor cabo-friense quem abriu caminho para todos os outros “romancistas” posteriores. O Filho do Pescador não é, portanto, apenas um problemático livro de autor estreante; é o primeiro romance de uma nação. Não parece pois justo exigir excelência de obra pioneira no exercício do gênero literário mais complexo em nosso país. Esta consideração que elevou tal romance em meu conceito, mas não apenas ela. Se considerarmos também que Teixeira e Sousa foi um mulato de precária educação (interrompida aos treze anos por problemas financeiros), e que por volta dos vinte anos, já não tinha nenhum membro da família vivo, passaremos a admirá-lo muito mais, pois, não obstante tantas adversidades, perseverou ele ainda com suas atividades literárias. Todas essas razões são mais que suficientes para justificar o interesse pela leitura do objeto desta resenha.

O Filho do Pescador é um típico romance de folhetim. Não quero dizer com isto simplesmente que trata-se de narrativa de caráter folhetinesco; sua primeira publicação foi de fato em forma de “folhetim”, quando saiu nos rodapés do jornal O Brasil, de 6 de julho a 22 de agosto de 1843. Enquanto romance de folhetim, a obra não poderia deixar de conter todos os elementos característicos do gênero, que era mesmo destinado a agradar o grande público. Portanto, como era comum aos folhetins, o enredo é bastante movimentado, os personagens estereotipados, há manutenção de suspense, além de reviravoltas e ganchos entre os capítulos. Ainda que narrado de forma linear, o autor faz uso de flashbacks através de revelações feitas pelos próprios personagens.

Seduzida por Sérgio, Laura abandona sua mãe e vai viver com o amante; era órfã de pai e contava apenas treze anos. Após dar a luz a um menino, Sérgio a abandona, levando-lhe seu filho. Laura é amparada por outro homem, mas ambos acabam naufragando na costa fluminense; morre o amante, mas Laura é salva por Augusto, o filho do pescador, que a leva para sua casa na praia de Copacabana, onde se desenrola a trama. Apaixonado pela náufraga, a quem acredita ser viúva, Augusto quer casar-se com ela, mesmo contra a vontade do velho pescador, seu pai.

Realizado o casamento, Laura dá cada vez mais mostras de sua leviandade. Tendo casado por interesse, sente-se logo atraída por Florindo, cantor de modinhas e “amigo” de seu marido. Florindo persuade Laura a livrar-se de Augusto; para tanto, ela provoca um incêndio, mas o escravo João resgata seu senhor; uma tentativa de envenenamento acaba surtindo mais efeito. É também sugerido que Laura se relacionava com outros homens; após ser abandonada por Florindo, ela exige que Marcos (o amante seguinte) mate aquele que a desprezou. O que Laura não sabe é que alguém discretamente testemunha todos os seus crimes; com que intenções, não vou dizer. Para complicar tudo ainda mais, Emiliano, um jovem caçador, acaba despertando em Laura sentimentos que ela nunca antes experimentara. Esse novo amor, que é correspondido, se afigura diferente dos outros, revestido de pureza e honestidade; mas o Dr. Sinval, padrinho e pai adotivo de Emiliano, é dono de um segredo que impossibilita terminantemente tal união.

O romance, como já bem sugere o enredo, é bastante artificial e repleto de exageros. Os tipos são mesmo caricatos e Aurélio Buarque de Holanda os percebe como abstrações: “O autor não movimenta seres humanos; movimenta abstrações – a Beleza e a Fealdade, o Egoísmo e a Renúncia, a Virtude e o Vício”. O crítico também reconhece uma “despreocupação com a verossimilhança”; não que os episódios sejam exatamente inverossímeis; a forma como o autor os conta, tão deliberadamente e sem maiores explicações, é que os torna. Como aponta o mesmo crítico, os personagens se movimentam meio que de forma automática, como se fossem máquinas trabalhando, isentos portanto de necessidades comuns ao cotidiano de todas as pessoas.

Sobre o estilo do autor, não podemos deixar de mencionar suas frases de efeito que permeiam toda a obra, que fizeram Domício Proença Filho associá-las aos atuais modelos de autoajuda, e Aurélio Buarque de Holanda chamar seu autor um “sub-Marquês de Maricá”. Eu, particularmente, gostei dessas máximas do autor. Digam o que disserem, marquei várias delas, pois me causaram, sinceramente, boas impressões.

Domício Proença Filho reconhece ainda no narrador do romance certas técnicas que antecipam o esmerado estilo machadiano. O narrador de Teixeira e Sousa, embora peque por se confundir com o autor (ainda que por causa explicável: o romance é uma espécie de resposta a pedido de certa dona Emília), mantém uma conversação com o leitor: comenta as situações, supõe que impressões os episódios narrados poderiam provocar, transcreve até supostos pensamentos de possíveis leitores a respeito da obra. Todas essas técnicas narrativas, sim, dão certa graça ao livro.

Mas o que deveras mais me chamou atenção nesta leitura, e que também não passou despercebido a Domício Proença Filho, é a atualidade do discurso feminista de Emiliano (note-se que é um personagem masculino) no último capítulo. Teixeira e Sousa, através deste personagem, reflete a condição da mulher em sua época, tão constantemente exposta à qualidade de vítima pela maldade dos homens. Em suma, critica-se uma realidade que persiste até os dias de hoje: o homem que exige virtude da mulher e que a repreende por seu vício, ainda que ele mesmo tenha colaborado com sua corrupção.

O Filho do Pescador é uma leitura simplesmente necessária a todos os apreciadores da literatura nacional, não só pelo seu valor histórico/documental, mas para compreensão do alicerce do que hoje chamamos romance brasileiro.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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